off
África, Economía, Movementos sociais, Politica internacional — 12 Agosto, 2023 at 10:36 a.m.

O golpe militar no Níger reflete mudanças na África e verifica o rejeitamento das velhas metrópoles

by

Talvez seja necessário avaliar este golpe numa dinâmica mais ampla, onde se verifica uma rejeição das velhas metrópoles que mantiveram o domínio neocolonial do continente, nomeadamente a França, e uma nova encenação da luta geopolítica entre os aliados atlantistas e o seu mundo unipolar e a ascensão de outras economias, como a Rússia, a China e a Índia e a sua influência no continente africano. O interesse francês e ocidental em manter o Níger sob controlo ultrapassa as ligações económicas e de fornecimento de urânio. O país do Sahel representa o último grande aliado ocidental na região, depois das juntas militares do Mali e do Burkina Faso terem afastado a política francesa dos seus países e se terem aproximado da Rússia. 

Uma série de golpes militares eclodiu em Burkina Faso, Guiné, Mali e, em julho, no Níger . Os países ocidentais, liderados pela França e pelos Estados Unidos, estão em pé de guerra e consideram demais a reversão no Níger  : os dois países suspenderam a ajuda ao desenvolvimento do país; eles também apoiaram a ideia de uma potencial intervenção militar da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) , mesmo que os Estados Unidos pareçam recuar no assunto.

O golpe de Estado no Níger tornou-se uma luta pela influência entre rivais orientais e ocidentais em África. O presidente deposto, Mohamed Bazoum, era pró-europeu, especialmente a França, a quem fornecia recursos importantes, incluindo urânio. O novo líder do Níger, o general Abdourahmane Tchiani, antigo chefe da guarda presidencial, está alinhado com a Rússia e já cortou as exportações de produtos de base para França. A UE já está fortemente envolvida na disputa e procura manter os laços comerciais com o Níger, enquanto a Rússia também tem estado ativa na promoção das suas relações com os líderes africanos, oferecendo-lhes cereais gratuitos e fundos com desconto para centrais nucleares, entre outras cousas. A perspectiva de intervenção militar e sanções irritou a juventude do Níger e dos países vizinhos – lembre-se que 40% da população na África tem 15 anos ou menos. Nesse sentido, o apoio da população local aos golpes é mais uma postura antiocidental do que um voto de confiança ao regime militar.

Os protestos e lamentações na mídia ocidental em nome da “democracia” na África soam vazios. Na realidade, são precisamente os séculos de exploração e interferência imperialista na região que prepararam o terreno para a crise atual. Enquanto usam a retórica anticolonialista, que ressoa poderosamente em toda a África, esses novos regimes estão se voltando para a Rússia em busca de apoio, estabelecendo uma nova frente importante no confronto entre o imperialismo ocidental e a Rússia. 

 

A prática do paternalismo em relação aos africanos alimenta o sentimento antiocidental ganha força e alimenta o apoio popular aos golpes de estado.De fato, no continente, a mídia social está impregnada de retórica antiocidental. 

A prisão do presidente do Níger, Mohamed Bazum, em 26 de julho, seguida do anúncio do governo militar, provocou uma escalada imediata das tensões na região. Tendo sofrido reveses no chamado “cinturão golpista”, que se estende da Guiné, no oeste, ao Sudão, no leste, o imperialismo ocidental e seus aliados locais estão claramente em estado de pânico e procurando meios de defender seus interesses na região . .

A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), liderada pola Nigéria e apoiada polo Ocidente, anunciou imediatamente pesadas sanções e até ameaçou uma intervenção militar se Bazum não retornar ao poder até o final desta semana. A Nigéria já cortou a energia para o Níger, que responde por 70 por cento do poder do país, em uma tentativa de aplicar mais pressão.

Isso, por sua vez, levou os governos de Mali e Burkina Faso a anunciar que “uma intervenção militar contra o Níger equivaleria a uma declaração de guerra” contra essas nações, enquanto a Guiné se pronunciou a favor do golpe e se recusou a realizar o sanções. Dois blocos regionais já surgiram efetivamente, ameaçando mais conflitos e instabilidade.

Furioso, o presidente francês Emanuelle Macron alertou que “não toleraria nenhum ataque contra a França e seus interesses”, prometendo ação “imediata e intransigente” em tal caso.

Mas, apesar da retórica inflamada, até agora a resposta da França e da UE  limitou-se a interromper a ajuda financeira e evacuar os cidadãos europeus. O ministro francês dos Negócios Estrangeiros negou qualquer intenção de intervenção militar. Em 2013, o governo “socialista” de François Hollande enviou 1.700 soldados franceses ao Mali a convite do governo do Mali, estabelecido em um golpe de Estado um ano antes. Nos anos seguintes, tornou-se uma força de ocupação permanente de aproximadamente 3.000 soldados, operando ao lado das forças americanas em cinco países. No verdadeiro estilo de Josep Borrell, devemos devolver à segurança do “jardim” aqueles que se encontram perdidos nos problemas da selva. A estereotipização do continente africano tem raízes no racismo e no colonialismo, e é isso que vai preencher as lacunas de informação.

Por sua vez, o presidente francês Emmanuel Macron não tardou a ameaçar a nova autoridade do Níger com uma intervenção para garantir os interesses franceses no país, depois de terem declarado que o urânio do Níger deixaria de ser exportado para França. Um dos slogans entoados polos manifestantes que apoiavam o golpe no país era que, enquanto eles iluminavam a França, estavam a viver na escuridão.

De acordo com os dados do Banco Mundial, apenas 18,6% da população do Níger tem acesso à eletricidade, enquanto o país fornece 40% da eletricidade às cidades francesas através da exportação do urânio do Níger.

E, no entanto, longe de sufocar a ameaça terrorista, o imperialismo ocidental só piorou o problema. A pobreza e a instabilidade na região fornecem um terreno fértil para o recrutamento de grupos islâmicos, que oferecem a jovens carentes “dinheiro, mulheres, carne e uma motocicleta”, de acordo com um ex-combatente islâmico entrevistado no The  Economist . Enquanto isso, as tropas francesas e americanas são vistas apenas como protetoras de seus próprios interesses imperialistas, e não sem razão.

Se o regime golpista ficar firmemente estabelecido, então o ex-senhor colonial do Níger, a França, será quem mais perderá. A França manteve um controle rígido sobre a economia do Níger desde que conquistou a independência formal em 1960 e tem 1.500 soldados estacionados no país.

Desde que o Níger se tornou uma colônia francesa em 1922, foi mantido à força em um estado de extrema pobreza e dependência econômica. Mais de 41% vivem abaixo da linha de pobreza absoluta do Banco Mundial de US$ 2,25 por dia. Apenas 11% da população tem acesso a saneamento básico, de acordo com o Índice de Transformação Bertelsmann.

A grande maioria dos nigerianos vive uma existência extremamente precária, baseada na pecuária nômade e na agricultura de subsistência no campo, ou trabalha no ambíguo “setor informal” das cidades. A escravidão ainda pode ser encontrada em partes do país, com 7% da população sujeita a trabalho forçado.

Ao mesmo tempo, o Níger é o sétimo maior produtor mundial de urânio. Também exporta ouro e petróleo. E, no entanto, como sempre acontece com as nações pobres e dominadas, nem uma perra chica dessa riqueza chega ao povo do país.

A grande maioria das minas de urânio do Níger são de propriedade e controladas por empresas estrangeiras, das quais a francesa Orano é uma das principais participantes. Enquanto isso, a “ajuda” ao desenvolvimento internacional, que chega a quase US$ 2 bilhões por ano, é consumida por uma inchada e corrupta burocracia estatal na capital, que na verdade forma uma elite dependente que governa o país no interesse de seus pagadores.À extrema pobreza das massas soma-se a progressiva desertificação do país em consequência das alterações climáticas e do flagelo do banditismo islâmico, monstro nascido e alimentado polas intervenções imperialistas no Médio Oriente e Norte de África.

A intervenção da OTAN na Líbia em 2011, promovida sobretudo pola França – em defesa da “democracia”, claro – arrastou o país para a barbárie, caracterizada por confrontos entre senhores da guerra rivais e mercados de escravos na costa mediterrânea. Mas a desestabilização forjada polo imperialismo ocidental não terminou aí. O colapso do estado líbio injetou armas e combatentes através do Saara, diretamente na região do Sahel. O grupo terrorista islâmico Boko Haram estabeleceu uma presença permanente no nordeste da Nigéria, enquanto grupos ligados ao ISIS e à Al-Qaeda invadiram Mali, Burkina Faso e Níger.

Um elemento novo e extremamente importante na equação é a ‘alternativa’ apresentada pola Rússia, que está preenchendo a lacuna deixada polo Ocidente em partes da África. No Mali, Burkina Faso e Níger, cada um dos governos golpistas combinou a retórica anticolonialista com declarações de lealdade à Rússia. Manifestantes do golpe muitas vezes podem ser vistos agitando a bandeira russa. Este fato é de extrema importância para a mudança nas relações mundiais que vem se acelerando desde o início da guerra na Ucrânia no ano passado.O declínio relativo do imperialismo americano e europeu é particularmente claro no continente africano. A China tornou-se o maior parceiro comercial da África, enquanto a Rússia seguiu gradualmente uma estratégia de estabelecer pontos de apoio em vários países, especialmente naqueles sob a influência do imperialismo francês.O nível de investimento econômico da Rússia na África continua baixo em comparação com o da China, mas seu apoio na forma de armas e combatentes da companhia Wagner conquistou alguns aliados importantes. Já é o maior fornecedor de armas na África subsaariana, de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute.

A cimeira Rússia-África

O imperialismo russo e a resposta do imperialismo estadunidense foram um importante ponto de virada. A tentativa dos EUA e da OTAN de isolar a Rússia do resto do mundo falhou. Em vez de atrair a África para os EUA e a Europa para condenar a Rússia, os EUA provocaram mudanças dramáticas no continente. O imperialismo russo, por sua vez, voltou-se para explorar esta situação da melhor maneira possível. Putin cinicamente fez um grande show de suas recém-descobertas credenciais “anti-coloniais”. Em um discurso de setembro de 2022, ele vinculou a guerra da Ucrânia à luta contra o colonialismo ocidental, destacando seu papel no “tráfico de escravos, no genocídio de tribos indígenas na América, no saque da Índia, da África…”.

Ibrahim Traoré, o jovem capitão e presidente interino de Burkina Faso, quando disse na cimeira Rússia-África em Moscovo em julho que sua geração se perguntava por que seu continente era tão economicamente pobre e tão rico em recursos naturais. Ele culpou o imperialismo ocidental e os muitos líderes africanos que costumam pedir ajuda a ele. Para o capitão Ibrahim Traoré de Burkina Faso, é hora de a África tomar seu destino em suas próprias mãos e buscar novas parcerias para desenvolver. Essa mensagem conquistou os jovens de Burkina Faso e, após sua declaração, Traoré foi recebido como um herói. Na cimeira Rússia-África, que decorreu durante o golpe no Níger, Traoré citou Nelson Mandela e enumerou várias figuras famosas na luta de libertação de África contra o imperialismo, incluindo o primeiro-ministro congolês Patrice Lumumba, que foi assassinado com a participação da Bélgica e dos Estados Unidos.A mídia ocidental foi rápida em descartar a cimeira devido ao fato de que menos nações compareceram do que a última em 2019, mas isso deliberadamente obscurece o fato de que 19 chefes de estado africanos compareceram desafiando a forte pressão ocidental, fazendo discursos condenando explicitamente o Ocidente e elogiando a Rússia.

O golpe no Níger representa uma derrota humilhante para o imperialismo francês e um grande golpe para o Ocidente na África. O Níger foi considerado o “último dominó” depois que a França foi forçada a mover suas tropas de Mali e Burkina Faso para o país. Agora apenas o Chade continua sendo uma base de apoio, e está longe de ser claro que continuará sendo, considerando os crescentes protestos anti-franceses que ocorrem lá e a guerra no Sudão a leste. A perda do Níger não apenas ameaçaria o acesso europeu ao ouro e urânio na região; comprometeria seriamente a construção de um gasoduto da Nigéria para a Argélia, iniciada no ano passado, ameaçando ainda mais a segurança energética da UE.

Além disso, a França e a UE contaram com regimes como os do Níger para tentar impedir o fluxo de imigrantes da África subsaariana para a Europa.Não é de admirar, então, que o Ocidente e seus aliados estejam aplicando o máximo de pressão possível para restaurar o antigo governo.

No entanto, sua margem de manobra é extremamente limitada devido ao intenso sentimento anticolonial na região e à alternativa que a Rússia apresenta. Como disse um analista do think tank Crisis Group: “Os países ocidentais precisam realmente facilitar e tentar encontrar maneiras de colaborar com esses países apenas para não empurrá-los para o outro lado, que é a Rússia”.Além do Sahel e do continente africano, essa virada marca uma nova etapa na crise do imperialismo ocidental e na fragmentação do mundo em várias potências concorrentes, ou “multipolaridade”, como costuma ser chamada.Como dixo Traore em seu encontro com Putin, pedindo uma cooperação econômica mais estreita com a Rússia: “Queremos um mundo multipolar e defendemos a soberania”.

A maioria dos actuais países africanos conquistou a sua independência após a Segunda Guerra Mundial através de processos de descolonização, quer através da luta armada, quer através de acordos políticos. O contexto da Guerra Fria favoreceu o cenário para os países do chamado “terceiro mundo”, que, no meio de um equilíbrio nas relações internacionais, obtiveram um espaço para o desenvolvimento das suas próprias lutas emancipatórias.

A visão africana

Nos últimos dias, a mensagem do presidente interino do Burkina Faso durante a cimeira bilateral África-Rússia tornou-se viral. As referências ao pai do “país dos homens rectos” mostram, mais uma vez, que as pegadas dos seus libertadores continuam a percorrer as estradas do continente. Após o colapso do bloco socialista, estes países, construídos segundo a lógica colonial e sem qualquer desenvolvimento infraestrutural para além do estritamente necessário à pilhagem dos seus recursos e matérias-primas, permanecem isolados e sem opções em termos de relações políticas e comerciais internacionais. A ascensão do mundo unipolar, liderado polos EUA, travou a emancipação destes povos, que tiveram de subsistir mantendo as principais estruturas económicas da colónia. Como meros exportadores de matérias-primas, com uma oligarquia corrupta ao serviço desses interesses estrangeiros, com a violência crescente e os confrontos étnicos a agitarem um vespeiro de fronteiras fictícias criadas polos colonizadores. Dominados na sua soberania política por organismos internacionais que, com base numa dívida articulada como elemento de dominação, controlavam todas as tentativas de mudança de soberania que fossem tentadas.

Estes processos de independência tiveram uma forte oposição das antigas metrópoles. Líderes proeminentes das revoluções independentistas africanas foram assassinados por ordem dos países que os tinham colonizado. São vários os casos, como Patrice Lumumba no Congo, Thomas Sankara no Burkina Faso, Amílcar Cabral na Guiné-Bissau, entre muitos outros. A Europa pode ter conseguido apagar estes nomes da história, mas o mesmo não aconteceu em África. Para alguns analistas, o facto de alguns manifestantes que apoiam o golpe no Níger terem bandeiras russas seria um sinal do envolvimento deste país no golpe. Mais uma vez, o que ninguém levanta é a visão africana do que está a acontecer no seu próprio território ou uma leitura geopolítica baseada nos seus próprios interesses.

Um gasoduto de 13 mil milhões de dólares

Um projeto de 13 mil milhões de dólares para um gasoduto que ligue os campos de gás gigantes da Nigéria à Europa está ameaçado polo recente golpe de Estado no Níger. O gasoduto, há muito discutido, poderia abastecer 11 países ao longo da costa africana, a caminho de Marrocos, e depois ligar-se ao sistema energético de Espanha ou Itália. A iniciativa ganhou novo ímpeto após a interrupção do fornecimento de gás russo à União Europeia (UE) no ano passado. Numa reunião realizada em Abuja, capital da Nigéria, em junho passado, os ministros da energia da Argélia, Nigéria e Níger concordaram em acelerar os trabalhos relativos ao gasoduto trans-saariano, que poderá transportar 30 mil milhões de metros cúbicos por ano de exportações de gás dos três países para a Europa.

Centrais nucleares francesas

A França tem 56 centrais nucleares. O derrube de Bazoum no Níger preocupou o Presidente francês Emmanuel Macron, que convocou um conselho de segurança de emergência. Macron sabe bem que a França precisa do urânio do Níger para fazer funcionar as centrais nucleares que fornecem eletricidade a todo o país. Paris é a primeira potência nuclear da Europa. Além disso, mais de metade da sua produção – 64,67% da sua eletricidade total – provém da energia atómica. O urânio é o principal combustível dos reactores nucleares franceses e o Níger é o quarto país do mundo com mais reservas de urânio no seu solo. Em 2020, um terço das importações francesas de urânio (34,7 %) provinha do Níger; o Cazaquistão representava 28,9 % e o Uzbequistão 26,5 %, segundo o Comité Técnico da Euratom (a agência da Comunidade Europeia da Energia Atómica).

Grazas por leres e colaborares no Ollaparo !

Este sitio usa Akismet para reducir o spam. Aprende como se procesan os datos dos teus comentarios.

off