As últimas pesquisas colocam o líder do Partido dos Trabalhadores, Lula da Silva, à frente na corrida com o atual presidente de direita, Jair Bolsonaro, no último turno da eleição presidencial no Brasil. Se Lula vencer, será um retorno dramático para o ex-presidente depois de ter sido preso por suposta corrupção sob o regime anterior de direita de Temer; e, finalmente, liberado e autorizado a agir novamente. Uma vitória de Lula significará que o Partido dos Trabalhadores recuperou a presidência depois de perdê-la quando a última líder do WP, Dilma Rousseff, sofreu impeachment por um Congresso de direita em um “golpe suave” em 2016. Os governos petistas combinaram elementos do desenvolvimentismo e do neoliberalismo numa construção contraditória, organizando uma grande coalizão política de trabalhadores e capitalistas que permitiu ampliar o salário real e reduzir a pobreza e a desigualdade, mantendo os ganhos dos capitais produtivo e financeiro. O FMI prevê um crescimento real do PIB de apenas 1% para o Brasil no próximo ano. Ao mesmo tempo, mais da metade da população brasileira permanece abaixo de uma renda mensal per capita de R$ 560.
As instituições brasileiras, já enfraquecidas por quatro anos duma mistura de conspiração e autoritarismo podem não se recuperar. Porque é um país fendido, fracturado. Lembremos as 600 mil mortes causadas pola política negacionista do governo Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 e os milhões de hectares devastados na Amazônia, de mais de 14 milhões de desempregados, da crise econômica e da inflação, as manifestações bolsonaristas do dia 7 foram as maiores desde aquelas que defenderam o golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff em 2016. De feito, a vitória do ‘Trump Tropical’ Bolsonaro em 2018 foi alcançada principalmente por causa da desilusão de setores da classe trabalhadora com o Partido dos Trabalhadores e da campanha de mídia bem-sucedida alegando que o WP era corrupto. Após o colapso dos preços das commodities em recursos e agricultura em 2014, a economia entrou em recessão. A culpa por isso e a corrupção foi colocada na porta do Partido dos Trabalhadores. Mas a experiência da crise do COVID sob Bolsonaro, quando mais de 750.000 brasileiros morreram, foi tão marcante que, além de sua base entre cristãos evangélicos e empresários pequeno-burgueses, parece que muitos brasileiros se afastaram dele e voltaram para Lula. , apesar de seu recorde passado, na esperança de melhor.
A economia esta-se recuperando lentamente da queda do COVID, com base no aumento dos preços das commodities no ano passado. Mas o histórico econômico de longo prazo do Brasil, especialmente desde a Grande Recessão, é de desaceleração do crescimento do PIB e da produtividade, aumento da dívida pública e privada e, acima de tudo, de extrema desigualdade de riqueza e renda
A recuperação econômica do ano passado também reforçou o apoio à coalizão de Bolsonaro, já que o desemprego oficial caiu para seu nível mais baixo em quase sete anos (embora ainda esteja acima dos níveis anteriores à Grande Recessão de 2008-9). A inflação também está caindo, mas ainda bem acima dos níveis pré-pandemia.
Há uma excelente análise do desempenho econômico dos governos anteriores do WP polo economista marxista brasileiro Adalmir Marquetti e colegas. Que assim resume o impacto dos governos petistas anteriores: “Os governos petistas combinaram elementos do desenvolvimentismo e do neoliberalismo numa construção contraditória, organizando uma grande coalizão política de trabalhadores e capitalistas que permitiu ampliar o salário real e reduzir a pobreza e a desigualdade, mantendo os ganhos dos capitais produtivo e financeiro. O declínio da lucratividade após a crise de 2008 quebrou a coalizão de classes construída durante o governo Lula. O governo Dilma Rousseff adotou uma série de estímulos fiscais para a acumulação de capital privado com baixo crescimento econômico. Após sua reeleição, o governo implementou um programa de austeridade que resultou em taxas de crescimento negativas. Com o aprofundamento da crise econômica e sem apoio político, Dilma Rousseff foi afastada do poder.” Marquetti argumenta que a queda da lucratividade após a crise de 2008 teve papel fundamental na ruptura da coalizão política organizada sob a liderança de Lula, abrindo as possibilidades para o golpe brando de 2016. Entre 2003 e 2007, a taxa de lucro aumentou apesar do declínio da participação nos lucros devido ao aumento da utilização da capacidade e da produtividade potencial do capital. Entre 2007 e 2015, a taxa de lucro diminuiu devido ao aumento da participação salarial e à queda na produtividade potencial do capital. Em 2010, último ano do governo Lula, a taxa de lucro ainda era maior do que no início dos anos 2000. No entanto, a trajetória de longo prazo da taxa de lucro começou a declinar após 2010, no final do boom global dos preços das commodities. “A queda simultânea da taxa de lucro e da rentabilidade financeira foi o início do fim da coalizão de classes construída polo governo Lula.”
O governo Dilma Rousseff voltou-se para as políticas neoliberais na tentativa de superar o declínio do crescimento associado à queda das taxas de lucro do capital brasileiro. Dilma Rousseff buscou uma aproximação com os setores da burguesia, contrariando sua promessa durante a campanha eleitoral. As primeiras medidas fiscais, anunciadas em janeiro de 2015, restringiram o acesso dos trabalhadores ao seguro-desemprego e alteraram as regras de alguns benefícios previdenciários.
O governo petista teria capitulado à visão do grande empresariado brasileiro, consagrada no boletim de julho de 2016 (Instituto de Pesquisa em Desenvolvimento Industrial, think tank ligado à grande indústria brasileira, “Sem Lucros, Sem Investimentos” ( IEDI, 2016 ). a política econômica aumentou o desemprego e reduziu o salário real, mas essa capitulação não salvou Dilma Rousseff de seu impeachment polo Congresso e da instituição dum governo de direita.
A reeleição de Bolsonaro arriscaria transformar o Brasil no longo prazo numa espécie de teocracia, por causa da onipotência dos evangélicos, onde as armas de fogo abundariam, onde a liberdade moral tornaria-se uma memória distante e onde a proteção do meio ambiente seria ser machucado todos os dias. A socióloga Bruna della Torre diz que Bolsonaro sabe mobilizar muito bem o ressentimento daqueles que trabalham, passam necessidade, mas não roubam e permanecem sujeitos à violência de seus vizinhos e “para nada mais faz do que estabelecer um acordo com seus seguidores a partir do exagero e da explicitação daquilo que estava presente de forma subterrânea no corpo social”. E pergunta-se “como pessoas que não conseguem possuir essa mercadoria (e, ao menos num nível consciente, sequer a desejam realmente) insistiam em apresentar essa pauta como a principal razão de sua escolha eleitoral” quando moi poucas pessoas a favor dessa pauta, conseguiria comprar uma arma (5 mil reais a 10 mil reais): ” arma é a garantia de poder ser ouvido. Um poder que está ao alcance da mão. Ainda que a maioria dos eleitores de Bolsonaro não comprnuma arma, E inquire: “que vende [Bolsonaro] quando anuncia armas e o armamento da população para além do público-alvo minoritário consumidor de armas?”: a “arma” é o objeto que incorpora a ideia de que, nesse mundo, “vence o mais forte”, uma ideia que não deixa de ser verdadeira sob o capitalismo, especialmente sob o capitalismo periférico assolado pola precariedade generalizada. Nesse tipo de sociedade, ninguém quer estar na ponta mais fraca da corda e esse sentimento de insegurança é potente o suficiente para que haja uma identificação com o lado vencedor” O encarceramento em massa e a desigualdade econômica de base racial fam do país.O discurso punitivista atravessa as classes.
A arma é a garantia de poder ser ouvido. Um poder que está ao alcance da mão. Ainda que a maioria dos eleitores de Bolsonaro não comprnuma arma. O Brasil tem quase a maior medida de desigualdade de renda do mundo.
Della Torre acha que o que o Brasil precisa é que o próximo governo que crie as condições para que as armas se tornnuma mercadoria prescrita e indesejável, um modelo ultrapassado e sem utilidade para pensar o país.” O governo de Bolsonaro é baseado na grande aliança duma parte do capital financeiro com milícias, agronegócio, igrejas evangélicas, entre outros. Não há dúvida de que há interesses materiais em jogo. Mas o fascismo se implanta organizando ressentimentos difusos no corpo social, direcionando insatisfações, explorando o desejo de mudança, prometendo vingança contra quem se recusa a aceitar toda a renúncia exigida para sobreviver nesse mundo fechado da família, do trabalho, da religião.
O ex-presidente Lula colocou de forma mais dramática: “No Brasil, 33 milhões de pessoas não têm o suficiente para comer” , escreveu ele no Twitter. “Conseguimos no passado tirar o Brasil do mapa mundial da fome. Mas a fome voltou.”
A vitória de Lula, nesse contexto, seria um verdadeiro alívio: para a esquerda brasileira, mas também para as democracias ocidentais traumatizadas pola proliferação de chefes de Estado fascistas.Bolsonaro pode contar com uma multidão de simpatizantes fanáticos dispostos a tudo para manter seu ídolo no poder. De Lula ganhar por pouco e aqueles, liderados polo presidente brasileiro, conseguem recusar o veredicto das urnas gritando conspiração. Fala-se até do medo de um golpe, basicamente um cenário de Donald Trump quando apoiadores do presidente derrotado por Joe Biden invadiram o Capitólio. Mas o pior só começaria para o candidato do Partido dos Trabalhadores. Porque a derrota de Bolsonaro não significaria o fim do bolsonarismo. O que acontecerá se um candidato de extrema-direita mais hábil que Bolsonaro surgir nos próximos meses ou anos? O perigo à frente de um novo governo Lula semá maioria no Congresso enfrentará uma campanha viciosa na mídia. E parece que Bolsonaro consolidou uma coalizão de direita baseada em camadas pequeno-burguesas religiosas e enlouquecidas, e uma classe média alta antagônica particularmente nas grandes cidades do sul; com Lula contando com uma classe trabalhadora um tanto desiludida.









