O ensaísta, romancista, professor, poeta e tradutor brasileiro afirmou ao jornal portugués Público que o prémio lhe veio “trazer uma nota de esperança para dias melhores que virão”.

Silviano Santiago (1936) é narrador, poeta, ensaísta e crítico cultural brasileiro. Embora tenha recebido o seu doutorado em Literatura Francesa na Sorbonne em 1968, as suas obras percorrem igualmente os campos da história e da antropologia. Entre seus textos de ficção destacam-se: Em libertade (1981), Stella Manhattan (1985), Uma história de família (1992), Keith Jarrett no blue note: improvisos de jazz (1996), Viagem ao México (1995), Mil Rosas Roubadas (2014), Machado (2016), entre outros. Seus ensaios de crítica literária e cultural estão reunidos em várias coleções: Uma literatura nos trópicos (1978), Vale quanto peso (1982), Nas malhas da Letra (2002), O cosmopolitismo do Pobre (2004), Ora (direis ), empurre a conversa! (2006) e Como raiz e labirinto da América Latina (2006) e Genealogia da Ferocidade (2017). Foi também editor da revista Margens/Márgenes e coordenador do Glossário de Derrida (1976). Outros trabalhos relevantes são a edição e prefácio da antologia Intérpretes do Brasil (3 vols.) (2000), bem como o prefácio e notas da correspondência de Carlos Drumond de Andrade, em Carlos & Mario (2002).
A obra de Silviano Santiago constitui uma das propostas mais inovadoras da crítica brasileira nas últimas décadas. Com uma extensa obra que percorreu diversos gêneros como poesia, romance e ensaio, o autor de “El entre-lugar del discurso latinoamericano” criou um pensamento que busca romper com a dependência da metrópole sem cair no nacionalismo extremo ou latino-americanismo. A originalidade de suas reflexões consiste justamente na busca constante de abrir a possibilidade de pensar as culturas brasileiras, latino-americanas ou marginais a partir de perspectivas que rompam com lugares tradicionais e concepções já estabelecidas, para iluminar aspectos invisíveis que permitam desmontar as noções usuais de identidade .
Entre-lugar e cosmopolitismo
Ideias que atravessam sua obra, como entre-lugar e cosmopolitismo, em relação ao campo cultural brasileiro, à teoria pós-colonial e ao panorama atual da produção do conhecimento. Em entrevista realizada em agosto de 2013, no âmbito do colóquio internacional Entrelugar e tradução, organizado conjuntamente polo Departamento de Filosofia da Universidade Metropolitana de Ciências da Educação, o Doutorado em Estética e Teoria da Arte da Universidade do Chile e o Mestrado em Educação Chilena e Literatura Latino-Americana da Universidade de Santiago, Silviano afirmou que “o entre-lugar deve ser entendido, inicialmente, na perspectiva do que chamamos de estudos pós-coloniais. A conferência onde essa ideia é desenvolvida pela primeira vez Já foi escrito para falar, por um lado, da condição das literaturas que foram escritas em nações colonizadas pela Europa –no caso latino-americano, por Espanha e Portugal– e, por outro, investigar e revelar em que sentido que essa produção colonial poderia ter sentido para nós hoje, ou seja, não se trata de ler essa produção nem no lugar europeu nem no lugar nacional, mas no entre-lugar. Esse era o sentido básico da minha ideia naquele momento: que o entre-lugar possibilitaria um jogo de significados que não se limita ao nacional, o que seria um tanto perigoso, pois pode levar a um nacionalismo estreito e autossuficiente, que dá as costas ao estrangeiro; nem para o lugar do europeu, pois estaríamos apenas insistindo na força da fonte e na força da influência, ou seja: no silêncio do colonizado. Ou seja, essa produção seria ibérica porque estaria imitando os modelos europeus, então, o entre surge como uma posição que eu chamaria de alternativa, já que os estudos literários estavam alinhados com um lado ou outro. Mas também surge, mais do que uma alternativa, como uma prática de leitura para repensar a literatura comparada. Parece-me que este é o segundo passo, repensar o que é e o que foi essa disciplina, certamente europeia, certamente eurocêntrica, que chamamos de literatura comparada. Isso nos leva a reconsiderar as produções pós-independência (no caso do Brasil, após 1822) juntamente com as produções propriamente coloniais (antes de 1822). Dentro dessa produção pós-independência, pode-se então dar uma nova leitura e o exemplo que dei para não cair num nacionalismo estreito não foi brasileiro, mas português, o de Eça de Queirós. O olhar do entre-lugar permite ler o século XIX e também permite uma releitura do modernismo brasileiro4 surgido após 1922 e que, não por acaso, se situa no contexto do centenário da independência brasileira. E aí, na leitura do modernismo brasileiro, obviamente já se percebe uma aproximação mais clara da ideia de entre-lugar com a própria ideologia de vanguarda europeia.”
“Procuro trazer a antropofagia (que está em Oswald de Andrade) para o século 21, tratando de questões do passado, mas não mais no contexto do passado, mas do presente. No meu caso, procuro retornar a uma nota levemente cosmopolita que já existia em meus estudos dos anos setenta e oitenta, no contexto do novo milênio e diante da globalização. Nela, tento abrir uma brecha do cosmopolitismo da elite para opor-lo ao cosmopolitismo dos pobres, o que me permite aproximar a teoria pós-colonial dos anos setenta e oitenta com os movimentos diaspóricos do novo século. Nesse sentido, por exemplo, trabalho com as ideias de Stuart Hall, que não estava na minha bibliografia nas décadas anteriores.”
“Para compreender o contemporâneo, não basta um pensamento enciclopédico, que não avança, que não é vanguarda; que dá conta do que está acontecendo hoje, mas não lança o leitor em novas questões, em novos pontos críticos. O que é muito importante no entre-lugar é que é uma teoria do risco, do perigo, não é uma teoria da tranquilidade e isso é o que me parece mais importante, é uma teoria onde somos obrigados a correr riscos, construir um caminho próprio e abrir espaços de discussão, que às vezes pode ser muito proveitoso e às vezes não, porque não há garantias.”
E conclui, “o gesto dominante do pensamento pós-colonial do entre-lugar é escrever contra, o da criação literária não é isso, mas escrever com afeto.Mas não para imitar.”
Algumas de suas obras mais destacadas são os livros de ensaios Uma literatura nos trópicos. Ensaios sobre a dependência cultural (1978), Vale a pena quanto pesa. Ensaios sobre questões político-culturais (1982), Nas malhas da Letra (1989), O Cosmopolitismo do Pobre. Crítica Literária e Crítica Cultural (2004) e As Raízes e o Labirinto da América Latina (2006)2; junto com os romances Em liberdade (1981), Stella Manhattan (1985) e Viagem ao México (1993); entre outras. Recentemente, Silviano Santiago ganhou o Prêmio Ibero-Americano José Donoso de Literatura 2014.















