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Ecofascismo. Quando voltar ao normal é o problema (2)

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Uma ecologia dos ricos ( capitalismo das partes interessadas)

O ecofascismo, como modulação do colapso, coloca uma questão que consistiria na necessidade da redução compulsória da população como forma de continuar mantendo os atuais níveis de consumo de energia na sua aquisição e distribuição assimétrica, com os quais o problema do colapso poderia ser retardado no tempo, chegando até mesmo à possibilidade de equilibrar a relação entre produção e consumo de energia.Se cada sociedade tem uma certa capacidade de produção de energia em relação ao grau de desenvolvimento tecnológico e disponibilidade de matérias-primas, desde a perspectiva do colapso seria lógico perguntar se o problema da espécie humana não foi a quantidade de energia consumida, mas o número de habitantes dum planeta que tem capacidades limitadas de extração de energia. Seria pertinente trazer aqui, ao abrir o problema  da população, a identificação estabelecida por Marx de que a chave da Modernidade é o freio que as relações sociais capitalistas colocam nas possibilidades tecnológicas de produção de riqueza, ou seja, o esquema clássico da dialética entre forças produtivas e relações de produção o que levaria a reconsiderar sem demora o foco dos projetos de emancipação pensados ​​e ensaiados desde o século XIX.

O problema do colapso, e mais especificamente o problema da população, supõe um ato crítico dessa posição. O que pressupõe outra crítica do humanismo esclarecido, que chegou até nossos dias na forma de preocupação nos países ocidentais com a baixa taxa de natalidade. Essa ideologia da defesa a dignidade humana por acima da divina, seria negada neste contexto material e histórico pola possibilidade de que tal dignidade é uma ameaça à própria sobrevivência de toda a espécie, sem cair em postulados eugênicos. Seguindo aqui Carlos Taibo  existem apenas duas alternativas, que se baseiam na absoluta necessidade do colapso do consumo da energia atual: por um lado, o retorno às sociedades baseadas na solidariedade e dignidade humana como valores que estariam acima do competitivo e o individualismo dificilmente compatível com a nua sobrevivência; por outro, o diminuição parcial da população mundial como resultado dessa mudança repentina nas condições de vida e consumo. Ao relacionar o problema populacional com uma sociedade de escassez e o problema da emancipação, que basicamente terá que ser banido como uma mera ilusão baseada no mito do progresso ilimitado e a fumaça  valorizada como se fosse um progresso nas primeiras experiências socialistas do século XX e a ideia da necessidade de criar rapidamente uma base industrial para a  sobrevivência dessas experiências quando foram deslocadas para a periferia capitalista. Portanto, acrescenta Taibo, nada seria mais inútil para a filosofia, a ciência política e a ecologia do que pensar que o modelo de emancipação é o duma aceleração ainda maior da capacidade produtiva do capitalismo. Os limites da produção de energia nada mais seria do que os limites do comunismo, que, como o socialismo real quase sempre esqueceu de lembrar, só é possível a partir duma sociedade de abundância. 

Considerando as reviravoltas positivas na retórica ambientalista de esquerda, por contraste justamente à retórica de oligarcas ao jeito do Gates, é fulcral considerarmos  que o grupo que está mais perigosamente dançando no gume da retórica e da ação ecofascista não seja os ambientalistas e ecologistas de esquerda, de fasquia biocêntrica, mas sim os ambientalistas tecnocientíficos mais moderados, “capitalistas verdes” que impulsionam ativamente políticas que colocam a responsabilidade de reagir em algumas das populações historicamente mais marginalizadas do mundo, enquanto se recusam a engajar as causas profundas das crises da civilização do século XXI. Seria uma variante informada do negacionismo. Porém, estamos longe da continuação da democratização da sociedade e da política, avanços sociais progressivos e a afirmação da soberania nacional.  Esse grupo tecnocrático mais politicamente moderado de indivíduos que se apresentam como ambientalistas sob o disfarce de “capitalismo verde” é arriscadamente imprudente de várias maneiras importantes. As propostas mais imediatas sobre planejamento familiar e control de natalidade devem ser consideradas no contexto dos compromissos históricos do Norte Global com comunidades marginalizadas e como o planejamento familiar.O control da natalidade e a esterilização têm sido utilizados como uma ferramenta do colonialismo e do etnocídio lento. Infelizmente, no contexto das crises ambientais modernas, tais políticas e propostas têm ressurgido continuamente, mas com a sugestão de que são motivadas por preocupações ambientais ou pola ideia de que a redução da população é a chave para aliviar a pobreza, desconsiderando completamente outros fatores socioculturais, políticos ou econômicos endógenos. Em última análise, tais propostas têm o potencial de continuar a reduzir a população de povos não europeus que detêm e incorporam uma diversidade de visões de mundo, epistemologias e estilos de vida que representam alternativas à perigosa hegemonia do desenvolvimento ocidental. Nesse sentido, tais projetos, inadvertidamente ou não, pode servir como herdeiro dos históricos genocídios, etnocídios e epistimecídios realizados por atores ocidentais. É importante ressaltar que essa homogeneização e a percepção de falta de alternativas encoraja indivíduos e comunidades a consentirem com a norma hegemônica. Estranhamente semelhante à forma como os ecofascistas alemães uma vez citaram com entonação racial preocupações ambientais, os tecnocratas politicamente moderados de hoje correm o risco de decretar um etnocídio lento  via control de natalidade nas comunidades mais marginalizadas do mundo usando justificativas semelhantes. 

Estamos diante duma reedição dum  tipo de falso pragmatismo baseado em soluções de gestão individual e inovação tecnológica que sugere que um progresso tecnocientífico moito rápido facilitaria a transição entre o capitalismo que causou a queda para um pós-capitalismo livre de trabalho e banhado na satisfação que esconderia inequivocamente sua vocação ecofascista ao afirmar a hierarquia e a desigualdade.5

Recentes artigos publicados7, indicam que os países ricos continuam contando com a exploração de terras e corpos do Sul global para manter seus altos níveis de crescimento e consumo. Como tem afirmado Grosfoguel, “Colonialidade e modernidade constituem duas faces duma mesma moeda”. Da mesma forma que a revolução industrial europeia foi realizada sobre os ombros das formas coagidas de trabalho na periferia, as novas identidades, direitos, leis e instituições da modernidade, como estados-nação, cidadania e democracia, foram formadas num processo de interação colonial e dominação/exploração de países não-ocidentais”.8  Grosfoguel destaca que na Europa – como aconteceu agora na Itàlia com a coalizão de direita, formada polos “Irmãos da Itália” e  “Liga e Forza Itália”-  os partidos de extrema direita estão crescendo e conquistando um grande número de votos em eleições sucessivas em todo a Europa com islamofobia e discursos xenófobos anti-imigrantes, e além disso, “os centros metropolitanos não têm um ‘problema minoritário’ como definido na Holanda e na Grã-Bretanha ou um “problema de imigração”, conforme definido na França e nos Estados Unidos, mas sim um ‘problema racista’”. Infelizmente, este não é um fenômeno novo para acompanhar as conversas da população programas de control e planejamento familiar. Portanto, devemos tomar um olhar crítico sobre as tendências históricas dos movimentos políticos, como o desenvolvimento do ecofascismo em toda parte7. Sempre é mais confortável falarmos sobre o próprio consumo pessoal do que afirmar que as mudanças sistêmicas é um produto do neoliberalismo extrativista, que fomos treinados para nos vermos primeiro como consumidores e não como cidadãos tomadores de decisão. 

A aceitação de narrativas de ‘ecologia profunda’ por grupos de extrema direita é outra indicação de que o ecofascismo está sendo levado para os bastidores, alimentando o fogo do racismo para imaginar um futuro seguro, limpo e verde, mas apenas para alguns privilegiados. Para os estados de colonização mais violentos do mundo, isso significa a continuação de regimes carcerários que visam pessoas dos povos indígenas (primeiras nações), detenção offshore indefinida para refugiados e control e monitoramento populacional que visa pessoas pretas, pessoas com deficiência e pessoas LGBTIQA. A expropriação e o control de pessoas marginalizadas definiram o país desde a colonização europeia que marcou a primeira onda real de destruição ambiental e social. Hoje o racismo ambiental está incorporado no fracking e mineração em terras aborígenes sem consentimento prévio mas também no seio dos Estados  do Norte Global como colonialismo interno e inação dos governos para fornecer água potável a cidades que sofrem com a seca, quer infraestrutura fundamental, quer medicamentos quer, em fim, a possibilidade de decidir, etc.

Com Samir Amin9, assumir que o capitalismo pode-se desenvolver na periferia da mesma forma que supostamente acontece na Europa é uma impossibilidade lógica, mas que esta resposta pode ser derivada acriticamente, como está acontecendo de fato, das características europeias endógenas da racionalidade capitalista é antes de todo um absurdo que nos leva à catástrofe.  O álibi  de que as pessoas comuns, e não as estruturas sociais, devem ser responsabilizadas polas mudanças climáticas ainda circula – e invariavelmente empurra para posições da direita mais reacionária. Podemos imaginar cada vez mais o espaço que o ecofascismo pode ocupar quando os requerentes de asilo fugindo da seca, da guerra e da fome chegam aos milhares às cercas de arame farpado de Melilha, como a Espanha e a UE responderam? Uma abordagem adotada polas democracias empraçadas  já é defendida polos populistas racistas do Rassemblement National de Marine Le Pen, o Orban na Hungria, a Vox na Espanha, e recentemente o ecofascismo de Giorgia Meloni na Itália, postulando o policiamento de fronteira massivamente intensificado como uma resposta “realista” à inevitabilidade do desastre ambiental. No entanto, é preciso não esquecer que o governo brasileiro de Bolsonaro é até paradigmático do eixo em que se combinam militarismo, colonialismo, racismo e misoginia, frente política que tem sido a semente do ecofascismo que estava por trás de massacres como o da Nova Zelândia e El Paso. O discurso ambientalista genérico – “salve o planeta” e assim por diante – ignora com moita facilidade que a dizimação do clima não acontecerá a todos ao mesmo tempo. O eco-fascista apoia abertamente o genocídio das vítimas frente da degradação ambiental. Os políticos do “norte global” que se recusam a abrir fronteiras para refugiados podem condenar o massacre em El Paso, mas diante da migração em massa, alimentada polo clima, as consequências das políticas de fronteira fechadas serão mais assassinas do que qualquer número de eco-fascistas armados. Um ecofascismo que expulsa as mulheres do espaço público e que criminaliza as feministas, acusando-as de defender a ideia perversa da ideologia de gênero, ao invés da perspectiva de gênero, quando a única ideologia de gênero é a do patriarcalismo que se normalizou especialmente em países do Leste Europeu, América Latina, e que foram definitivamente promovidos polo trumpismo sociològico. Embora os massacres de El Paso ou Christchurch e as correntes sobrevivencialistas na França sejam mais do que epifenômenos ancorados numa concepção racialista de ecologia, o que nos interessa destacar aqui é como essa abordagem segregacionista que integra imigração e globalização como dous lados dum mesmo problema, se alinha de fato, com um pensamento neoambientalista construído sobre a ocultação dos fundamentos coloniais, patriarcais e escravistas da modernidade que esconde em seu colo as desigualdades sociais, a discriminação de gênero, o racismo e as situações (pós)coloniais, e abandona as demandas por justiça global. Produtivismo neo-keynesiano, economia climática, crescimento verde, economia verde, novo acordo verde, novo acordo para a natureza, desenvolvimento sustentável, crescimento económico sustentável, bioeconomia, economia circular, economia digital, economia do conhecimento… Porém, permanece a contradição entre sustentar o capital acumulando o crescimento industrial e reduzir os impactos socioecológicos de seu rendimento material e energético.

Prevalece uma consciência dicotomizante do mundo: dum lado estariam os escolhidos, os vencedores do fim do mundo, e do outro os condenados da terra, aqueles que merecem desaparecer . A minoria dos mais ricos que possuem a grande maioria de sua riqueza e administram seus negócios corporativos, as crises ecológicas e econômicas são apenas mais uma oportunidade de ganhar dinheiro. Eis o alicerce certo do ecofascismo estrutural com o que realmente nos devemos importar: a visão 2020 da CE, a nova economia climática do GCEC, a  nova economia climática de Stern -que apenas aborda aspectos éticos muito superficialmente e não questiona o crescimento econômico-. e a economia verde da ONU. A percepção hegemônica, conscientemente inoculada, de que podemos sobreviver independentemente das catástrofes generalizadas. A crença ilimitada no lucro de curto prazo se correlaciona com a percepção psicopática de que há trilhões de dólares a serem ganhos na transição para uma nova forma de capitalismo, o novo normal. A elite de financistas, banqueiros, bilionários e gestores corporativos parece menos preocupada com crises socioecológicas do que com a possibilidade de a maioria desprivilegiada se rebelar e exigir uma reorganização do sistema econômico e político. A resposta da linha dura é a aliança com a direita ecofascista, fechando fronteiras para imigrantes, designando críticos como terroristas e ameaças à segurança nacional, control autoritário usando securitização por meio do poder policial e militar. Este é um processo contínuo nas democracias empraçadas, no que  prevalece a conformidade dos atores sociais e como isso envolve a absorção de intelectuais e movimentos de oposição.

É claro que os efeitos das mudanças climáticas e do colonialismo estão profundamente interligados, já que não é cousa do passado. Como nos lembrou recentemente Sousa Santos, as corporações transnacionais praticaram por décadas a pilhagem de recursos, concentração de terras e assassinato daqueles que resistiram a deixar seus territórios e que agora se tornou política de Estado em moitos países. Entre os fatores que a provocaram, estão as contradições a que o neoliberalismo globalizante nos levou, o conluio de moitos partidos social-democratas, democratas-cristãos, socioliberais e conservadores com a extrema direita – tornando-se, em moitos casos, um indício de desembarque do mesmo – e a crise desses mesmos partidos social-democratas que se entregaram a ser gestores do que é possível por eles definido e a promover uma mentalidade pró-mercado, na qual existe aquele casamento entre globalização financeira e capital especulativo. 

A extrema direita, depois de anos negando a realidade das mudanças climáticas, agora está mostrando sérios sinais de reversão de sua estratégia, tentando ganhar o relato  dos fundamentos da ecologia como uma dádiva para legitimar o seu discurso de ódio ´já que a mudança do clima alimenta a sua crença apocalíptica marcada polo medo da  invasão e desaparecimento,  mas em suas versões paradoxalmente neoliberais (eis Vox na Espanha) a ecologia, além de servir aqui de tela para o pensamento segregacionista e etnodiferencialista, está alinhada com o extrativismo saqueador de base neocolonial. Se por um lado instrumentalizam o conceito de natureza para legitimar seleção, desigualdade e hierarquia, por outro alimentam a ideia de crescimento desenfreado. Uma política que busca preservar as condições de vida na Terra, mas em benefício exclusivo duma minoria, inclusive branca. O que o engenheiro ambiental  Malcolm Ferdinand chama de “ecologia da arca de Noé”.

É por isso que é mais necessário do que nunca não esquecer, continuando com Samir Amin,  que “o fascismo é uma resposta política particular aos desafios que a gestão da sociedade capitalista pode enfrentar em circunstâncias específicas porque  todos os regimes fascistas estam “dispostos a administrar o governo e a sociedade de forma a não questionar os princípios fundamentais do capitalismo, especificamente a propriedade capitalista privada, incluindo a do capitalismo monopolista moderno” e  a rejeição categórica da “democracia” sob autoridade do líder supremo e seus principais agentes. Precisamente sob o pretexto de anticomunismo, alguns fascismos subalternos nunca foram ostracizados por sua violência antidemocrática e genocida. Despojado de seu imaginário romântico, enquanto política tangível o  ecofascismo torna-se política de extrema-direita convencional e ecologicamente destrutiva. O ecologismo da extrema-direita surge no ponto em que o imaginário ecofascista colide com as realidades materiais da alocação de recursos e o modo da extrema-direita de reunir poder político.  Sem um desafio fundamental ao capitalismo, colonialismo e patriarcado, os planos de ‘atacar’ e ‘nos defender’ das mudanças climáticas irão sobrecarregar a própria dinâmica que fomentou a crise, reproduzindo os sistemas de dano e violência que sustentam a acumulação de capital.

Moitos daqueles que sofrem o impacto – morrendo, ou perdendo todo o que já tiveram, ou tendo seus meios de subsistência em crítico devalo– estão no Sul Global embora não sejam os únicos afetados. Aqueles que quase nada contribuíram para a mudança climática global serão os que mais sofrerão suas causas.. Uma nova geração de ativistas de extrema-direita percebeu que uma catástrofe ambiental iminente representa sua melhor chance de retornar à sua relevância. Na realidade, porém, sua mistura nociva de conspiração, ódio e violência não semelha ser solução: Desta profunda desigualdade vem o apoeo essencial para a justiça climática. O fascismo, na concepção de Michael Mann, é um movimento que radicaliza a política além do autoritarismo conservador. Como tal, depende da acumulação de instrumentos autoritários polos estados conservadores que a precederam. 

À medida que as crises climáticas aumentam em gravidade, as discussões sobre soluções passaram à grande mídia na  voz de atores políticos e elites econômicas, ainda que moitas dessas soluções poidam parecer “éticas” ou até mesmo a resposta ao problema ecológico, tendem a evitar a olhada crítica das causas profundas para para entender quais ações são necessárias mesmo que afetem negativamente as comunidades marginalizadas, programas de planejamento familiar voltados na supressão de certas populações, o sentimento anti-imigrante, o nacionalismo de estado e o ecofascismo como epifenómeno do colapso, a fim de aliviar supostamente as alterações climáticas. Um dos principais elementos de que a extrema direita se alimenta é o sentimento de frustração, a sensação de ficar para trás. Se não recebes o que tem o direito de esperar,  não estás procurando a causa na crise sistêmica da democracia como assumida polo capitalismo. Em vez disso, culpa uma pessoa ou um coletivo por suas dificuldades. Como explicamos acima, correntes reacionárias tentam usar argumentos ecológicos desenvolvendo um discurso racista neo-malthusiano que culpa a crise ecológica na “população excessiva” dos países do Terceiro Mundo. Mas não é um discurso religioso ou fortes convicções éticas, polo contrário, é a favor da contracepção e do aborto compulsório nos países pobres. A atribuição da destruição ecológica ao crescimento demográfico obscurece as relações sociais através das quais, por exemplo, apenas uma preseira de empresas de combustíveis fósseis podem estar ligadas a mais dum terço das emissões de gases de efeito estufa. Dado que a crise climática foi gerada e ocorreu em condições de negação de fato (já que a mudança no modelo econômico não é questionada) está destinada a piorar. A resposta ecofascista está naturalmente ligada a esse negacionismo e à propagação da crise sistêmica do capitalismo monopolista generalizado, financeirizado e globalizado.

Gramsci alertou para a “revolução passiva” como capacidade resiliente das classes dominantes de cooptar os líderes das classes subalternas. A abordagem de cima para baixo para desviar a atenção da necessidade de mudança de sistema é algo que Gramsci relaciona com a integração passiva de segmentos subordinados da sociedade, mantendo-os impotentes. A economia de crescimento é uma estrutura de poder hegemônica10. Hegemonia é um conceito político que descreve uma posição ideológica que passa a dominar, “prevalecer, dominar, propagar-se por toda a sociedade – trazendo não apenas uma união de objetivos econômicos e políticos, mas também uma unidade intelectual e moral, […] grupos subordinados” ou seja, ao mesmo tempo servem para educar gerações inteiras na ideia de que o consenso entre os sistemas políticos e os partidos é que o crescimento econômico constitui o objetivo inquestionável da sociedade moderna ao qual todos devem aspirar. Mais do que isso, a crença expressa é que impor o crescimento econômico a todos os outros é um dever moral para ajudá-los a ‘se desenvolver’, e não fazê-lo é censurável.

 

5. Villalba, B. (2021). Les collapsologues et leurs ennemis. Le Pommier.

6.Hickel, J., Sullivan, D., & Zoomkawala, H. (2021). Plunder in the Post-Colonial Era: Quantifying Drain from the Global South Through Unequal Exchange, 1960–2018. New Political Economy, 26(6), 1030–1047. https://doi.org/10.1080/13563467.2021.1899153

7.Grosfoguel, R. 2011. “Decolonizing Post-Colonial Studies and Paradigms of Political- Economy: Transmodernity, Decolonial Thinking, and Global Coloniality.” Transmodernity: Journal of Peripheral Cultural Production of the Luso-Hispanic World 1:1-14

8.Grosfoguel, Ramón, Laura Oso, and Anastasia Christou.(2015). “‘Racism’, Intersectionality and Migration Studies: Framing Some Theoretical Reflections.” Identities: Global Studies in Culture and Power 22(6):1-18.

9.Amin, S. (2014). The Return of Fascism in Contemporary Capitalism. Monthly Review, 66(4), 1. https://doi.org/10.14452/MR-066-04-2014-08_1

10.Gramsci, A. (2019). Cadernos do cárcere e outros escritos: Escolma. Universidade de Santiago de Compostela : Fundacion BBVA.

Em breve, “Ecofascismo. Quando voltar ao normal é o problema ( e 3 ) Coda “

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