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Cinema, Globalização, Movementos sociais, Opinião — 19 Maio, 2021 at 11:13 a.m.

Nas margens do algoritmo: o nómada como empregado perfeito

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“A estetização da política é desencadeada pelo fascismo. O comunismo responde politizando a arte’

Walter Benjamin

 

A vida deve ser entendida de trás para frente, mas deve ser vivida para a frente, disse o Kierkegaard .O que talvez signifique  agir para o futuro com o balanço das forças disponíveis e, portanto, dos custos e riscos. A grande emergência do nosso tempo é a ausência de emergência, o que significa que o que é necessário não é tratado como uma emergência, como as chamadas “emergências” perentórias:  climática (Žižek, Zabala),  sanitária e laboral. A pandemia deu uma falsa percepção duma emergência sistêmica que pouco ou nada mudará no sistema de produção e consumo. O poder, portanto, é detido por aquele que é capaz de decidir o que é uma emergência e o que não é, que pode decidir que disparidade ou despropósito não são emergências, mas disfunções que podem ser tratadas com o mesmo remédio que as causou.

Apesar do magnífico desempenho de McDormand e Strathairn, a mensagem implícita do filme vencedor do Oscar Nomadland é que as pegadas da ação humana no mundo devem ser combatidas apenas com mais tecnologia. A técnica é a solução para aliviar os efeitos perniciosos que causa, como desejam os teóricos do antropoceno. A história  de sobrevivência de  Fern, uma mulher que é, em muitos aspectos, até mesmo uma história de aventuras (uma road movie, ao cabo). Viúva nómada, Fern ziguezagueia no filme de Nevada ao Arizona e Dakota do Sul, conseguindo empregos em centros de fornecimento da Amazon e restaurantes da beira de estrada, loitando para encontrar lugares para estacionar e dormir à noite sob as baixas temperaturas. Fern, o personagem de McDormand, é uma americana desiludida, não apenas devido a problemas econômicos ou de trabalho, mas também devido ao luto pessoal. Fern não se torna um nómada , “não um sem-teito, apenas um sem-teito”, disse ela, por vontade própria. Sua contraparte na vida real e seu marido, trabalharam durante anos para a Gypsum na cidade de Empire no estado de Nevada. A empresa foi fechada em 2011 e sua população foi despejada em apenas um ano. E quando sua irmã pede que ela se mude, Fern responde categoricamente que não pode. As restrições econômicas de Fern não são apresentadas como elo determinante na sua escolha de tornar-se uma nómada. Pola contra, é a sua “honestidade” inerente, o salário da irmã e a sua incapacidade de viver uma vida “socialmente aceitável”, tendo saído de casa assim que pôde, casando-se com o marido apenas depois de o ter conhecido. E ele morreu sem deixar herdo; perdeu o trabalho e a casa, e então decidiu converter sua camioneta chamada “Vanguard”,  uma combinação de veículo motorizado e apartamento eficiente. Fern não loita contra ferimentos, doenças, fadiga, confusão ou mesmo culpa e vergonha. A maior parte do tempo é lazer e improvissados passeios pola vida selvagem, caminhadas em parques, cacharelas, observação de estrelas e sequoias.Porém, na história de Fern  a política não é totalmente ignorada e algumas questões críticas estão pelo menos implícitas em  todo o que não é mostrado: não reconhece, entre outras, as comunidades de trabalhadores nómada s negros e latinos. Com certeza, poderia ser objetado  que Nomadland nunca tivo a intenção de ser uma pescuda crítica  da economia dos EUA ou das condições de trabalho na Amazon. No fim de conta, é um filme baseado num livro de não-ficção, mas é um conto de ficção essencialmente atravessado pela fantasia neoliberal. Um convite, sem dúvida,a um maior escrutínio no filme.

 

Os nómadas do filme de Chloé Zhao (cujo próximo filme é Eternals da Marveltransmitem a ficção de serem apenas um pequeno grupo  que sobrevive como uma subespécie de humanos que em vez de nascer com habilidades sobre-humanas ativadas pelo gene “X-Factor”, suas habilidades foram desvalorizadas pola desregulamentação do mercado e realocação e fechamento de empresas. Um processo acelerado de obsolescência do trabalho que os leva a ingressar em parques de caravanas e  aceitar empregos sazonais à mercê das necessidades de transnacionais como Amazon que aparecem como arcangèlicos seres tecnològicos aplicados à produção racional a sociedade visando o objetivo de disponibilizar o maior número possível de objetos de consumo no menor tempo possível. Em fim, existem pobres, explorados, sem-teito, sem remédios, mas otimizando sorrisos. E, por outro lado, não aparecem ricos nem exploradores nem certos grupos de homeless.  Sua aparência no filme é evanescente, apenas presente como uma moldura longe de qualquer indício de responsabilidade no desastre e na forma de agressividade que anda de mãos dadas com ela: a megaempresa que começou sendo um mercado online de livros como remédio para a desfeita que causou. Mesmo sendo apresentada no filme o seu programa  CamperForce (“program brings together a community of enthusiastic RV’ers for seasonal workamping job opportunities”) como tábua de resgate para sobreviventes ao feche de outras empresas e tendo  como triste legado o recente e malsucedido esforço de sindicalização  de trabalhadores numa instalação da Amazon em Alabama 

Agás Frances McDormand e David Strathairn, o elenco de “Nomadland” são pessoas “reais” (algumas, talvez, destilações, do perfil do eleitor de Trump) moradores de camioneta enfrentando opções impossíveis. Linda May é mostrada digitalizando produtos mas sem nenhuma menção à lesão real por estresse repetitivo doloroso por usar um scanner portátil todos os dias. May balança entre viver com  550 dólares por mês ou suicidar. E Bob Wells, um Youtuber bem conhecido nos EUA, aparece por vezes para fazer críticas ao capitalismo e, num lance, serve de  confessor de Fern. Wells conta a Fern que seu filho suicida, teria 33 anos naquele mesmo dia. A referência cristológica e a escolha de palavras não são por acaso. Da mesma forma,  Bob parece-se a um  profeta testamentário e pregar para os nómadas reunidos. “Alegremente tiramos o jugo do capitalismo e vivemos com ele toda a nossa vida”, espéta-lhe aos seus parceiros. Porém, Fern escolhe ser nómada . Ao tornar a história de Fern em uma história de responsabilidade pessoal e liberdade, o filme apaga as causas do sofrimento econômico dos nómadas . Na fantasia neoliberal o sofrimento individual torna-se assim êxito individual; a crise do capitalismo também é a solução. Os nómadas negociam ofertas de empregos vendendo hamburguesas aos turistas ou limpando banheiros em parques naturais, algures no deserto  trocam trebelhos em juntanças.

Em uma das cenas mais reveladoras do filme, Fern é convidada para o Dia de Ação de Graças na casa de um ex-nómada chamado Dave (Strathairn), que foi morar com seu filho. Dave di-lhe que é bem-vinda, mas no meio da noite, ela corre de sua confortável cama de hóspedes para sua van para dormir, voltando silenciosamente para a casa vazia na manhã seguinte antes de sair sem se despedir. A vida na estrada encaixa perfeitamente no que é explicado aos espectadores como a tendência já excêntrica de Fern.

Os nómadas são os empregados ótimos: mais velhos, desembaraçados, desesperados por trabalho e acarretam suas próprias moradias canda si. Hollywood presta culto mas uma vez uma existência vivida na estrada e sem-teito, sem realismo deprimente, mas como “interessante”

A negatividade do progresso pola calada, o feito de que “crescimento, aceleração e inovação não aparecem mais como promessa de melhoria de vida, mas como ameaça apocalíptico-claustrofóbica”, como escreve Hartmut Rosa no farturento ensaio publicado pola Herder (Lo indisponible),  diante do qual o nomadismo é apresentado como uma vida abertamente metafórica e cheia de ressonâncias. Diante das relações empobrecedoras mediadas pola empresa, a proximidade das relações solidárias de pessoas unidas polo desarraigo e ungidas por um certo estilo kerouaciano revisitado  mas também por aquela mítica dos primórdios  do far west que cruzaram desertos e planícies e que tem tentado alguns a defini-lo como um western existencial. As vastas extensões do deserto de Arizona, a majestade glacial das montanhas vermelhas, fornecem um cenário severo, plano e hostil para a história sobre jubilados e outros americanos que vivem nas suas camionetas, como se tudo se resumisse numa cousa:  finalmente alcançamos a liberdade (quando o que eles realmente tem é uma drástica redução opções). Migrando de empregos sazonais para encontros de troca, de parques nacionais a colheitas de beterraba açucareira, movimentar-se em círculos no interior de seu país, desabrigados e com previdência insuficiente.  Os nómadas são os empregados perfeitos: mais velhos, descomplicados, desesperados por trabalho e acarretam suas próprias moradias canda si. Vivem de escambo e constituem uma espécie de coletivo de ajuda mútua sem base geográfica precisa que facilita sua mobilização permanente. Nas margens do algoritmo, moram gig workers ao serviço do algoritmo: refugiados do crash das hipotecas subprime, mas a sua odisseia foi acelerada com Reagan, quando camadas de desabrigados permanentes cresceu tanto porque as indústrias que dependem de uma força de trabalho flexível, de baixa qualificação e baixo salário cresceram em termos relativos, quanto porque, dentro das indústrias, os empregadores devem depender cada vez mais dessa força de trabalho (Chris Tilly,Monthly Labor Review, March 1991)

“Nomadland” afasta-se do livro de 2017 “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century” de Jessica Bruder, que se concentrou mais profundamente na exploração desses “nómada s” polas empresas, notadamente a Amazon, que os contratam como temporários  ou em empresas onde os horários de trabalho são intencionalmente imprevisíveis: contratantes independentes, trabalhadores de plataforma online, trabalhadores subcontratados, trabalhadores de guarda. Moitos dos entrevistados por Bruder em seu livro aparecem no filme como personagens moderadamente fictícios, compartilhando histórias que refletem a insegurança econômica de verdadeiros velhos americanos, muitos dos quais estão atormentados por falta de lar e incapacidade de jubilar-se ou ter sucesso. Pagar por cuidados de saúde. A tecnologia é exclusiva da Amazon, enquanto a sociedade em que se implanta, ordenada e polida, semelha estar num estado pré-moderno e não experimenta a dissociação entre o progresso técnico e cultural ou social. Amazon  aparece  com a fasquia neutra do deserto que só se pode atravessar, no máximo estacionar e acampar, mas não mudar.

Os consumidores gorentam do privilégio de filhotes ativos que se beneficiam da sua tecnologia. Porém, há quem não tem “sorte” de viver com super-consumidores. A salvação do mundo não corresponde ao Estado e aceita apenas a precária ajuda mútua como beneficência, mas sim à iniciativa não estatal, aos serviços de aplicação da lei que foram terceirizados polas instituições estatais. Assim como os habitantes de Gotham e  Badia Aventura confiam a sua segurança a uma associação privada que age com discrição, distinguindo o que merece ser tratado como uma emergência.A inclusão de Zhao de reflexões às vezes reais, às vezes fictícias sobre as dificuldades da vida nómada , a justaposição de Fern com nómadas reais no filme semelhan estetizar a pobreza.Porém, Nomadland não estetiza a pobreza tanto quanto retrata de maneira desordenada a conexão dos personagens com seu nomadismo.Há beleza e alegria enquanto Zhao traça a jornada de Fern contra extensões de céus e cadeias de montanhas listradas polo solpor. Mas a alegria e a beleza acrescentam a realidade mais sombria da Nomadland e não apagam a precariedade do nomadismo.

O problema agora é que não são apenas as crianças, gente moça e família em geral que são o alvo dos produtos ‘convencionais’, que oferecem versões sujas da depredação neoliberal, mas toda a população. É óbvio que não é necessário decepcionamos antes demais, mostrando-lhes a outra faciana da natureza social dos humanos. O problema é o emaranhamento a que são submetidos pelos produtos convencionais, que oferecem versões adoçadas ou mitigadas da predação neoliberal e os acostumam a uma emocionalidade polêmica e estridente como a dos heróis da Disney e da Marvel de hoje. É, porém, esse mesmo modelo de vida que nos fai correr por toda parte e procurar em vão um suposto tempo de qualidade no deserto, o que nos faz aceitar que as crianças sejam seduzidas por gênios inocentes imaginários que nos divertem para que poidamos continuar correndo como nómadas. Nas margens do algoritmo apenas existe a particularidade “interessante” que envolve o caso, entusiastas escolhas pessoais.

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