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Economía, Opinião, Pensamento, Política — 29 Novembro, 2020 at 7:32 a.m.

Engels revisitado

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200 anos de Engels. Autores e textos, uma vez valorizados e canonizados, podem ser demonizados e soterrados em períodos posteriores. Normalmente, quanto mais dividida a comunidade de leitores, mais amplas as possibilidades interpretativas. A história da leitura de Engels em geral, e as controvérsias sobre a Dialética da Natureza em particular, exemplificam uma divisão de comunidades interpretativas. É assim por diante. Às vezes, Engels pode não ser o que pensamos que ele é:o companheiro político, velho camarada, suporte  e amigo de Marx. Uma  desas posibilidades malévolas sugere que Engels não é apenas o cofundador do moderno socialismo, mas também seu detrator. Como precursor do materialismo dialético, Engels supostamente co-inventou o “marxismo” e o estragou de vez. Segundo isso, ele não apenas traiu a ciência de Marx, mas a infectou com uma doença chamada Dialética da Natureza.  Por este motivo, Engels é encarregado de metafísica,dogmatismo, ecletismo, positivismo e assim por diante. De acordo com aquela narrativa, dialética da natureza é invenção do próprio Engels, e deve ser distinguida do empreendimento científico social de Marx. Outra interpretativa reforça justamente o oposto: tudo o que permanece e cai com a dialética materialista não é uma invenção de Engels, mas um produto da colaboração de Marx e Engels. Conseqüentemente, Marx e Engels não divergem, mas se complementam. Dialética da Natureza é uma cristalização da visão de mundo marxista, escrita por Engels com o apoio de Marx. Aqueles que fazem estranhas acusações contra Engels o fazem por motivos políticos. O que está por trás de seu relato é um anticomunismo oculto sob a máscara cientista.Infelizmente, uma briga desse tipo não permitia uma forma ideal de apelar aos problemas filosóficos que poderiam ter sido tratados doutra forma sob diferentes circunstâncias. Uma desvantagem das maneiras polas quais o debate de Engels foi realizado é este: os envolvidos no debate parecem estar despreparados para reconhecer surpresas desagradáveis. Alguns contribuintes parecem ter investido amplamente suas energias em resgatar ou enterrar Engels. O debate sobre Engels não se limita à ciência de Engels já que é debate político. Defender ou atacar a dialética de Engels significa confirmar ou negar a coerência interna das proposições teóricas e as posições práticas duma visão de mundo científica no que é chamado de‘ marxismo ’. A reputação intelectual de Engels, ou a dignidade política de seus defensores, certamente estava sob ataque, mas desafiava uma das concepções significativas, como a dialética da natureza, que era presumivelmente compatível com todo o corpo teórico do pensamento marxista, foi percebida como uma ameaça ao marxismo ou como um meio útil para enterrar um de seus “desertores” a fim de estabelecer um marxismo “autêntico”. Daí a malévola mofa (‘soviético’, ‘vulgar’, ‘desviante’, ‘renegado’, ‘trotskista’, ‘estalinista’, ‘idealista’ etc.).

Engels tematizou família, casamento, vínculos amorosos e de parentesco, trabalho assalariado, o exercício da autoridade masculina ou a soberania das mulheres, são problemas atuais, teóricos e empíricos, em diversos eidos de conhecimento, na política e na própria vida cotidiana. E por aí adiante, Mas não foi o único autor do seu tempo a abordar os vínculos entre a economia, a família e a subordinação das mulheres, mas seu pensamento foi pioneiro em vários aspectos, inclusive na formulação de uma teoria materialista das bases da desigualdade e na tentativa de explicar, a partir dos conceitos de Produção e Reprodução, os vínculos entre a subordinação da mulher e a família como unidade de reprodução econômica. Talvez Engels já era comunista antes de Marx se tornar comunista, mas não foi o único autor do século XIX a abordar os vínculos entre a economia, a família e a subordinação das mulheres. Ele mergulhou -o que hoje chamaríamos de trabalho de campo- na primeira revolução industrial e descobriu a “economia política” e sua primeira crítica seminal num artigo da única edição dos Anais Franco-Alemães de 1844 “Esboço Crítico da Economia Nacional” que Marx descreveu como brilhante e que o levou a iniciar seus estudos de economia. Dele surgiu a ideia de que os trabalhadores poderiam se tornar uma classe social e descreveu pela primeira vez uma desconexão entre salários e produtividade. A colaboração em publicações conjuntas polas quais se tornaram conhecidos, como A Sagrada Família, A Ideologia Alemã, Manifesto do Partido Comunista e artigos publicados na Gazeta Nova Renan entre 1848-49 e a  escrita em parceria a quase metade dos 500 artigos assinados por Marx para o New York Tribune entre 1851 e 1862, que descreveram para o público americano as muitas guerras e revoltas que aconteceram na Europa durante aquela década além do apoio moral e econômico que sempre deu a Marx. Porque seu trabalho também foi pioneiro em vários aspectos, incluindo a formulação duma teoria materialista sobre os fundamentos da desigualdade e a tentativa de explicar, a partir dos conceitos de produção e reprodução, os vínculos entre a subordinação da mulher e a família como unidade de reprodução econômica.

“A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, um livro escrito por Friedrich Engels em 1884, baseado na pesquisa do antropólogo J. Morgan sobre a família e as anotações feitas por Karl Marx, é um texto a ser revisitado. Existem várias contribuições analíticas para a teoria sobre a gênese das instituições sociais básicas – família, estado e economia – e sobre as conexões entre estas e as questões de opressão e exploração. Mas este livro tem sido, e é especialmente, um foco nos estudos da família, uma vez que forneceu abordagens consistentes para desvendar a natureza material e histórica das interações humanas e as formas de organizar a vida social, especialmente por meio das relações familiares e sexuais. Sua análise retirou as relações de gênero da camisa biológica e situou os motivos das desigualdades entre homens e mulheres fora dos destinos inscritos nos corpos. Eles também revelaram os vínculos entre a estrutura de classes, a opressão de gênero e o papel do casamento e da autoridade masculina na estrutura dessa rede de subordinação, controle da reprodução biológica, bens econômicos e propriedade privada. A família, o casamento, os laços de amor e parentesco, o trabalho assalariado, o exercício da autoridade ou a autonomia das mulheres, são problemas actuais, teóricos e empíricos, nos diferentes campos do conhecimento, da política e do próprio quotidiano. Algumas dessas questões ainda são abordadas no século XXI de maneiras surpreendentes, com apelos moralizantes, sem registros dilatados e evidências empíricas e baseadas em narrativas canónicas que sufocam sua compreensão histórica, sociológica ou antropológica. Ler este livro, portanto, é mais do que uma visita a um empreendimento teórico pioneiro da época. É necessário, útil e esclarecedor nestes tempos marcados por banalidades, desprezo polo saber e fundamentalismos obscurantistas.

Além das importantes críticas feministas que precisamo levar em consideração e que a tese do matriarcado como sistema hegemônico não encontra hoje muito embasamento empírico, a existência e diversidade de famílias matrilineares é ainda hoje evidente. A participação das mulheres no trabalho agrícola foi subestimada e estudos posteriores revelaram amplamente a sua presença, bem como nas actividades económicas em geral. Engels associou a dominação masculina ao impulso pola propriedade privada, subestimando a cultura e ligando, duma forma excessivamente otimista, a superação da opressão sexual com a superação da opressão de classe. No entanto, nada disso remove a densidade de sua análise e a relevância de muitas de suas conclusões para nos ajudar a refletir com novas perspectivas sobre o passado e compreender o presente.

Se falamos de sem-teito as ocupações urbanas ganham força, nada mais relevante do que lançar Engels na questão da habitação. O texto aborda os moradores de rua, seus motivos e soluções duma forma dolorosamente atual. Se, infelizmente, a natureza do problema habitacional permanece a mesma, Engels mostra  que a formação de grandes aglomerados urbanos provoca aumento dos alugueiros, concentração de famílias numa única casa e, no limite, moradores de rua. Ele explica que o problema não é um déficit habitacional quantitativo, mas uma eiva de distribuição: “já existem urbanizações suficientes nas metrópoles para remediar imediatamente, por meio de seu uso racional, todo o ‘déficit habitacional’ real”. Era a Europa do século XIX, mas hoje na Galiza existem 200.000 casas vazias em pequenos municípios (modelo de urbanização por geminação que configuram Galiza como única urbe) o suficiente para resolver o déficit habitacional do país favorecido precisamente polo devalo demográfico (mais um entre os moitos devalos).  Tudo isso enquanto o Xunta torna mais rígidos os requisitos de auxílio-moradia e muitas famílias sofrem despejos por não poderem pagar o alugueiro. Da mesma forma, centos de pessoas ainda estão esperando por um imóvel alugado protegido pela Xunta, de acordo com seu rex de acordo com seu registro oficial.

A luta dos movimentos em defesa da desapropriação dessas propriedades para trabalhadores sem-teito, é temática de Engels nos escritos de 1872. No entanto, ele é categórico ao afirmar que o problema habitacional não tem solução. definitivamente resolvido dentro da estrutura do capitalismo. A reestruturação urbana pelo capital não elimina a eiva, apenas a faz reaparecer noutro lugar. O ressurgimento da falta de moradia no Ocidente, juntamente com a explosão de ocupações urbanas na Galiza, mostram que o prognóstico de Engels era correto. O problema não é a construção de moradias, mas a lógica social.

Embora as análises de Marx das questões ecológicas sejam muito incompletas e obsoletas para ter relevância real hoje e haja algumas limitações sérias na forma como Marx e Engels vêem o “desenvolvimento das forças produtivas”, há ideias poderosas em sua discussão sobre as consequências destrutivas da expansão capitalista para o meio ambiente. expansão que gera uma divisão metabólica desastrosa nas trocas entre as sociedades humanas e a natureza. Entre eles, o significado metodológico da crítica ecológica do capitalismo de Marx, uma tese defendida por Michel Löwy segundo a qual a discussão de Marx e Engels sobre os problemas ecológicos é incompleta e desatualizada, mas, apesar dessas deficiências, hoje tem real relevância. Em uma passagem da Dialética da Natureza, Engels menciona a destruição da floresta cubana por grandes cafeicultores espanhóis e a resultante desertificação dos solos como um exemplo típico da atitude míope e predatória em relação à natureza do “modo de produção atual” e seu desprezo polas consequências prejudiciais. a longo prazo no ambiente natural.

O relato da dialética engelsiana tem o mérito de apresentar, tentando de os resolver, alguns dos problemas mais antigos de filosofia, Engels nos fornece um conjunto melhor de novas questões. Em outras palavras,  ainda está por debulhar o insight completo sobre  por que Engels empreendeu uma tarefa tão gigantesca como a Dialética da Natureza, isto é, reavaliar a dialética filosoficamente, por um lado, e ampliar seu escopo em direção à filosofia da natureza e das ciências naturais, por outro; e por que ele doptou por Hegel em vez de Aristóteles ou Kant. Em torno da premissa de que apenas uma dialética que parte dos feitos dados e que acompanha sua interconexãoe seu movimento é capaz de garantir o progresso continuado das ciências  reeditando assim a conhecida proposição de que a produção condiciona as formas do pensar, dando-lhe uma modulação especial que ressoou longamente nos debates marxistas posteriores.. Seus adversários imediatos eram a cegueira teórica do empirismo, de um lado e, de outro, a colonização da investigação pelas categorias fixas da metafísica.Dada a história relativamente longa do debate, também é bastante comum, bem como decepcionante, que a incompletude da obra de Engels seja considerada atendo-se à letra, sem realmente questionar por que o fazemos.

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