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COVID-19, Globalización, Movementos sociais, Opinión, Política — 2 Xuño, 2020 at 2:12 p.m.

O lockdown necropolítico dos Estados Unidos

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Desde os EUA, o neoliberalismo diz oferecer escolhas “livres”  nas que o único jeito de sobreviver é expor e arriscar a própria vida. Hipocrisia dum modelo que dificilmente dissimula a naturalidade do seu próprio artificio e reiteração recursiva. É o que é precisamente por esa flexibilidade adaptativa própria do oportunista. Agora, mais uma vez, Bíblia na mão. En concreto, levantando uma Biblia fronte a igreja Episcopal de São João, do outro lado da rua da Casa Branca. Por que uma encenação política tão promíscua e rude? Por que enviar uma mensagem tão poderosa e enfática ? Mas uma vez a Bíblia evangélica – utilizada para transformar e submeter os nativos- como símbolo do racismo e do patriarcalismo burguês próprios do fascismo americano, nos quais a riqueza é considerada uma ” graça de Deus” e a acumulação, á maneira calvinista, uma bênção a olhos dele. O que  não impediu ao campeão dos eleitores evangélicos conservadores, além encenação retórica, seus três casamentos, acusações de agressão sexual por dezenas de mulheres, o dinheiro pago a uma atriz de filme pornográfico e o registro de declarações falsas feitas durante sua presidência. A Bíblia no centro da vida pública (em 2016, Trump conquistou 81% dos votos evangélicos brancos) e o fundamentalismo evangélico como resposta a pedidos de justiça racial -que também viamos há pouco no golpe de estado na Bolívia– revivendo as divisões raciais e sociais de classe. Porque os conservadores evangélicos parecem ser o núcleo mais sólido da base de eleitores de Trump, apesar da agitação política e do grande número de mortes de Covid-19.Agora, esse fundamentalismo evangélico neoliberal chama por voz do ventríloquo Trump á volta urgente ao trabalho, quando antes negligenciava e banalizava qualquer tipo de emergência sanitária. A “normalidade” pós-lockdown expõe milhares pessoas à ameaça potencialmente letal de infecção. O primeiro encobrimento é seguido agora pelo segundo, talvez máis imoral, mesmo com pessoas e empresários cúmplices da ação criminal do capital (e Trump), ao  apresentar a volta á “normalidade” como um ato de livre escolha e segundo sua vontade e arbitrio.

Uma mulher segura uma faixa que diz “I can’t breathe,” enquanto as pessoas se reúnem na Trafalgar Square, no centro de Londres

Aquém e além da morte de George Floyd a mãos da violência policial ( o último duma série de mortes de homens e mulheres negros nas mãos da polícia nos EUA) mesmo sem estar diretamente vencelhada á pandemia, como a fúria dos milheiros de pessoas negras protestando contra esse ato de violência policial, o que traz á tona desde Minneapolis é a violência sistémico-estrutural dum modelo económico e social racializado que as estatísticas das mortes da covid-19 desvendam: as pessoas negras e hispânicas têm mais possibilidade de morrerem por conta do vírus do que caucasianos anglo-americanos. Não apenas isso: a fiscalização policial do distanciamento social  em EUA também afetou desproporcionalmente os afro-americanos. O fato do episódio ter acontecido no contexto duma pandemia global apenas aumentou as tensões raciais existentes.

Carros em chamas e a polícia antimotim americana apareceram nas primeiras páginas dos jornais de todo o mundo neste domingo, levando nalguns lugares as notícias da pandemia do COVID-19 ao status de segunda plana.Este incidente está longe de ser o primeiro da pràtica sem lei e violência injustificada por parte da polícia dos EUA. Racismo americano já foi visto antes, mas o andaço trouxe à tona as derivadas materiais do extremo abismo de classe nos EUA.  Aquém e além da distribução de riqueza  o que se mostra é o pano de fundo dum modelo societário que enquadra num padrão maior, próximo do conceito de necropolítica que o filósofo Achille Mbembe -tanto no que diz respeito à polícia quanto no que diz respeito à pandemia- concebeu para descreber o que além de “inscrever corpos dentro de aparatos disciplinares” na África, define um poder da soberania  encenado em zonas de morte, onde a morte tórna-se o último exercício de dominação e a principal forma de resistência. O termo demarca  que muitas vezes torna acidental a vitimização negra pela polícia quando é uma dimensão central do estado racial conforme nos achegamos desde a distancia ás topografias de violência geradas pelas práticas necropolíticas que o Estado pretende controlar, mas também ilustram os limites do Estado de direito ao lidar com certas zonas e órgãos vistos inerentemente como proibidos.

Não importa quanto a mídia em geral tenda a ignorá-lo, explosões de violência seguem  não apenas nos Estados Unidos da América, em Gaza na Palestina e no Brasil, em moitos paises africanos e no Mediterráneo, no Paquistão, no Irã e na fronteira militarizada da China com a India. Zonas nas que a única opção para sobreviver é arriscar a própria vida. A marginalização econômica e o encarceramento em massa produzem as mesmas geografias raciais que o Estado neoliberal pretende combater na sua guerra contra os negros urbanos pobres. No entanto, no contexto da governança necropolítica, a negritude aparece como uma prática espacial que permite às vítimas do terrorismo de Estado recuperar sua localização sem lugar como recurso político a redefinir. De quem é o espaço? Quem pode estar aqui? Quem não chega até aqui? E quem aplicará isso?

O racismo estrutural é  incorporado à geografia das cidades e permeia todas as suas instituições. No caso específico de Minneapolis, segundo  Diz Keith A. Mayes, professor de estudos afro-americanos e africanos na Universidade de Minnesota, há um historial geogràfico de confrontos entre policiais e moradores de comunidades negras que remontam ao período da Reconstrução, quando muitos departamentos de polícia foram criados para vigiar comunidades e controlar e encurralar grandes populações negras. Minneapolis é a quarta pior área metropolitana para negros americanos, uma cidade altamente segregada que como todos os bairros negros dos EUA, também está sujeito a práticas policiais muito diferentes das do bairro predominantemente branco a alguns quarteirões de distância. O próprio cruzamento onde a morte violenta de Floyd. Naquel recanto, as propriedades eram governadas por convênios raciais, segundo afirma en Times a historiadora Kirsten Delegard (diretora do Mapping Prejudice), mas esses convênios costumavam ser feitos nas fronteiras de bairros negros, num esforço para conter a população.

Abalar e atrapalhar, eis o estado de ánimo que nos conduz á ambivalência do que antes sendo percebido como acubilho protector tórna-se de súbito arriscado e perturbador, ocorrendo num momento em que as instituições sócio-históricas (mesmo para a mentalidade suspeita de tudo Estado ) cuja missão principal é mitigar a consistência da práxis simultaneamente, elas provam ser um multiplicador formidável da mesma contingência (não é uma pandemia viral uma amostra de superabundância de estímulos ambientais sem um objetivo biológico específico?). E o distanciamento do contexto de vida, e também de sua própria vida nua, nunca é isenta de um sentimento fundamental de culpa, ou a partir da sensação de estar sempre fora do lugar e nunca autorizado a fazer o que está fazendo. A potencialidade sem forma e, portanto, arriscada, irradia precisamente dos aparatos político-culturais que a restringiram primeiro. O sentimento de perturbação, que torna quase indescritível o risco e a proteção, é o correlato emocional da oscilação entre a naturalidade do artificial e a artificialidade do natural. Eis suas manifestações hipócritas como um produto da oscilação da unidade entre o biológico e o cultural que percebemos apenas quando separados.

A potencialidade sem forma e, portanto, arriscada, irradia precisamente dos aparatos político-culturais que a restringiram primeiro. O sentimento de perturbação, que torna quase indescritível o risco e a proteção, é o correlato emocional da oscilação entre a naturalidade do artificial e a artificialidade do natural. Eis suas manifestações hipócritas como um produto da oscilação da unidade entre o biológico e o cultural que percebemos apenas quando separados.

Assim, o des-confinamento nos EUA desvela que para milhares a volta á “normalidade” não é um ato de livre escolha máis intempérie. Porque a céu aberto, também não podem respirar.

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