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Editorial, Estado, Movementos sociais, Política — 28 Maio, 2020 at 9:06 a.m.

Me pilla muy lejos…

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Pode parecer que isso não tenha nada a ver com a reação furiosa do PP na Galiza, de Luis Rubido ao Núñez Feijoó, por ocasião da remoção do nome duma rua para Manuel Fraga Iribarne em Cedeira, com o ataque brutal e perfeitamente intencional a Pablo Iglesias no parlamento espanhol por parte de Cayetana Alvarez de Toledo, mas fazem parte da mesma construção de relato e dessa guerra quer mediática quer legal, na que a lei é usada como arma pronto a ser ativada quando é necessário. Relatórios, montagens, trolas e testes sob demanda não são de agora. Nem do procès catalão. Há um continuum desde o 75. Existem a #OperaciónJaro, Pandora, Egunkaria, Dixan, Altsasu,…e moitos, moitos outros. A diferença é que agora eles são vítimas daqueles que os usaram antes para suas próprias agendas. Agora contra Iglesias e Marlaska,  ex juíz da ‘Audiencia Nacional’ que durante anos se serviu de trolas e informes policiais falsos para executar a repressom judicial contra os movimentos independentistas.

Tudo isso serve para mostrar a indigência do governo “rotundamente progressista”, especialmente os socialistas, mas também de jeito transversal de Pablo Iglesias (vicepresiente de Unidas Podemos) a Pablo Moreda (alcalde do PSOE de Cedeira, que apelou ao cumprimento da lei para tirar o nome duma rúa a Fraga quando ministro de Franco), por terem assumido o herdo daqueles que não terem visto seriamente a necessidade de rever o passado, reescrevê-lo, não apenas como simples cumprimento dum imperativo legal ou como homenagem setaria, a resguardo da limitadísima Lei da Memoria Histórica, mas por alentar durante décadas o cinismo cúmplice que alimentou a história que perpetuou  o franquismo por outros médios- apenas mudando as formas mas alimentando a liquidação de direitos nacionais, civis e trabalhistas- e renunciando assim a punir os cúmplices da ditadura e fazer justiça. Porque, ao contrário de Portugal ou de África do Sul na Espanha, não houve corte.

Segundo Álvarez de Toledo, se o FRAP é considerado uma organização terrorista, o pai de Iglesias, por mais que tenha sido preso por distribuir panfletos contra uma ditadura, não é um combatente da liberdade, mas um terrorista. E é nessa farsa que Pablo Iglesias foi envolvido pelos pós-franquistas. Seu pai era membro da Frente Revolucionária Antifascista e Patriótica (FRAP), uma organização armada comunista que lutou contra o regime de Franco até 1978, embora ele nunca tenha anunciado oficialmente sua dissolução. Três dos militantes da organização, Xosé Humberto Baena Alonso, José Luis Sánchez Bravo e Ramón García Sanz, fizeram parte, juntamente com dois membros do ETA, do último grupo de presos políticos baleados por Franco em 27 de setembro de 1975. Oficialmente, o FRAP é responsabilizado por entre cinco e oito mortes em ataques, todos policiais.

Assinatura de Manuel Fraga Iribarne, em 16 de abril de 1971, fundador do Partido Popular, pedindo a libertação de Rudolf Hess, secretário pessoal de Adolf Hitler,Vice-Führer do NSDAP em 21 de abril de 1933,

Mas a organização combinou luta armada com ativismo político de rua e, em 1973, o pai de Pablo Iglesias, Francisco, foi preso por prender membros do grupo que distribuíam panfletos. Javier Iglesias nunca foi condenado porque a lei de anistia levou à sua libertação e o caso foi encerrado. Rafael Blasco, conselheiro valenciano do PP fechado por corrupção, também era do FRAP. Mas ser membro do FRAP nos anos setenta atesta um compromisso com a luta democrática num momento muito difícil, que ninguém pode subestimar e que deve ser honrado. Porém, se pensamos no que isso significa na Espanha, Fraga, que fazia parte do conselho de ministros que aprovou a execução de Julián Grimau, é um constitucionalista que deve ser elogiado, e que hoje serve a Luis Rubido e Feijóo afirmarem que é “intolerável” retirar o nome de uma rua de Fraga, que será renomeada como rúa da Fraternidade, enquanto o pai de Iglesias, que lutou pela liberdade, é um terrorista que não só precisa ser condenado, mas também condena seu filho. Como nunca houve corte e o regime foi perpetuado com uma mudança de forma e sempre que o regime estiver interessado cambalachea quanto puder. O que é intolerável?

O  trasformismo posfranquista vive de alimentar essa farsa, deturpando as palavras e con elas o passado para apropriar-se do presente. Lembrar: no serodio e intempestivo 1977, o alcalde e despois senador Leopoldo Rubido ergueu um monólito em homenagem a Franco, dois anos após a morte do ditador em ato presidido pelo ex-ministro de Franco Fernández de la Mora, também filho favorito do município e com presença moito activa do cachorro falangista Arsenio Fernández de Mesa  que em 2011 se tornaria Director general de la Guardia Civil. O monolito foi retirado em 2007 com os votos a favor dos grupos que compõem o governo local (PSdeG-PSOE, Terra Galega e BNG) e a abstenção do PP.

E é por isso que tudo isso acontece. Os franquistas simplesmente mantêm o controle da história porque ninguém, especialmente os socialistas, já viu seriamente a necessidade de revisar o passado.“Me pilla muy lejos”, Errejón disse há 1 ano diante de ataques de juízes e policiais neo-franquistas contra representantes políticos de Catalunha. A mesma fasquía adaptativa duma socialdemocracia espanhola que hoje clama contra o lawfare e que seduziu ao beirismo e a setores do movimento pelo independentismo catalã pós-procés para manter seu regime apodrecido. 

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