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Estado, Europa, Galiza, Opinión, Politica internacional, Portugal — 8 Novembro, 2016 at 11:07

O Portugal de Carlos Taibo

por Rafael Cid

“barcos que passam na noite e se nem saúdam nem conhecem”

Livro do desassossego. Bernardo Soares(Fernando Pessoa)

comprenderportugal_taiboQue um professor de Ciência Política, reconhecido experiente na ex repúblicas soviéticas, consumado ativista dos movimentos sociais, senlheiro divulgador das ameaças do desenvolvimentismo descontrolado e teimoso defensor do decrecimento, com mais de cinqüenta livros às costas traduzidos a vários idiomas, publique um manual sobre o país vizinho, a meio caminho entre o script sentimental, a crónica político-cultural e o ensaio histórico, resulta um feliç acontecimento que se calibra adequadamente se aceitamos que o nosso maratonista escritor aborda a tarefa desde a súa fasquía galega comprometida, cosmopolita e nómada.

Não é a primeira vez em que Taibo enfeita temas relacionados com a idiosincracia lusa, esse vizinho a contramão. Vinhan de trás as suas contribuições em torno da obra do Fernando Pessoa (Parecia Não Pisar o Chão. Treze Ensaios Sobre as Vidas de Fernando Pessoa (Através Editora, 2010) e Poesia de Fernando Pessoa) e outras questões relacionadas com a sua cartografia (galego, português, galego-portugês). Mas o notável de “Comprender Portugal” (Libros de la Catarata, 2015) reside no seu esforço de fazer pedagogia ilustrada sobre um território humano que desenvolveu a sua existência entre o desabrimento espanhol e a empatia galaica. Mérito de um agudo analista da problemática do nosso tempo que, desde o arrabalde do academicamente correto, leva anos a socializar opiniões e reflexões dissidentes para melhor interpretar o mundo que habitamos.

Falamos de uma faixa da península que foi arredada ao esquecimento por muitos nacionais, quando não menosprezada olimpicamente. A ignorância que muitos espanhóis têm de Portugal é babélica. Seu interesse é reduzido a pouco mais que o  morno Algarve  para turistas em chinelos, uma Fátima de penitentes e fegreses e a capitalina Lisboa para passantes com ponto de encontro entre a praça do Rossio e a do Comércio, embora todos eles, indiscriminadamente, certamente festejem a Cristiano Rolando, Luis Figo ou José Mourinho. Eis, como lembra o autor, “esse local vazio que se atribui a Portugal nos mapas meteorológicos espanhóis”. Essas são as carências que o livro citado vem a fostregar. E fá-lo com esse dizer cerimonioso (¿ antiguo y señorial?)  que Taibo nos tem afeitos nas suas conversas como conferencista em ateneus, universidades, C.S.O.A. e simples garitos, sítios onde costuma ir com generoso cumprimento.

O texto que comentamos se interroga sobre a existência de Portugal; explora a sua história antiga e contemporânea; percorre os momentos singulares da sua literatura; desbroça apontamentos sobre a sua cozinha, o fado, o futebol e a arte “manuelina”; aborda a questão colonial e a sua especificidade no caso do Brasil e, acima de tudo, penetra na problemática do idioma português em relação com o galego como heterónimos linguísticos. Almas gémeas com um toque de distinção. Como a famosa lenda do galo de Barcelos, símbolo e reclamo de Portugal, que cantou após assado para assim proclamar a inocência de um peregrino galego a ponto de ser enforcado por roubar.

“Comprender Portugal” revela que, no seu interior, os nossos paisanos têm um sentimento nostálgico da vida. Que se expressa em aptidões como a saudade («bem que se padece e mal de que se gosta» ) e expressões na fronteira do vitimismo, ao jeito do grande escritor Miguel Torga: “é realmente uma penitência andar pelo mundo a cabo com Portugal às costas”. Amamos a Portugal porque não gostamos? Embora esses mesmos desencontros servem à lógica do autor para resgatar em última instância aspetos gozosos de uma sociedade ensimismada: “Admiravel, e sorte é que ainda não existe uma linha de alta velocidade em Portugal

Placa de homenagem a Humberto DelgadoO livro também discute aspectos de uma mitología fabricada à custa do consumidor espanhol. A mais notável é a que estendeu a mesma visão sobre os regimes de Salazar e Franco, quiçá por isso o  mal de muitos, meu conforto é. Embora em essência tratasse-se de duas ditaduras de partido único, não eram intercambiáveis mas equidistantes. A primeira foi de tipo tradicionalista e estava presidida por um professor universitário que tinha o modelo republicano como forma de governo. A segunda, pelo contrário, assumiu desde os seus inícios fasquía quarteleira, hipócrita e fascista, recorrendo sem pudor ao terrorismo de Estado até os derradeiros anos da sua vida.

Quiçá por isso, e pela catarse que provocou a guerra nas colónias portuguesas, a saída oferecida a ambas experiências históricas resultou contradictoria. Se no caso de Portugal foram os militares quem puseram data de caducidade ao salazarismo funesto , aqui redigiuse em forma de minuta patriótica com o visto e praçe da oposição e cozedura nas próprias entranhas do sistema. Com certeza, que uma das primeiras medidas adotadas por aquela Transição (obviamente “não democrática”, stricto sensu) foi parar, processar e encarcerar aos oficiais que postulavan uma “revolução dos cravos” à espanhola (a União Militar Democrática).

Placa de homenagem a Humberto Delgado na Estação de Santa Apolónia de Lisboa.

Um facto que se pode mostrar ainda hoje nos respectivos nomes de ruas. Enquanto nas nossas cidades a referência a servidores da cruel ditadura franquista muito campa de valente não sem certa polémica, no país vizinho acontece o contrário, e se arejam publicamente as suas prevaricações . Eis a placa de homenagem adicada ao general Humberto Delgado levantada na praia da Caparica, em frente a Lisboa, com esta menção: “Candidato a presidência da República em 1958, assassinado pela PEDE em 13/02/1965”. Outra das rotinas que o Taibo contraria é a referida ao papel do Partido Comunista Português de Alvaro Cunhal na Revolução do 25 de Abril, ao lembrar que “atuou para frear muitos dos movimentos que, fugidiamente, se fizeram valer no sentido da expropriação e a auto-gestão. Circunstância que quem assina esta nota pode atestar quando tal ouvi da boca de Otelo Saravia de Carvalho em uma entrevista para Cambio 16 no tempo em que o líder do movimento dos capitães cumpria condenação na prisão militar de Tomar.

Relevante é também a referência que o texto contêm ao velho contencioso do iberismo como opção para saldar em positivo a secular suspeição entre os dois Estados peninsulares. Neste assunto, Taibo adverte que se trata de um debate que se projetou desde posições ideológicas diferentes e até mesmo antagónicas, embora desde a adesão da Espanha e Portugal à União Europeia a polémica foi perdendo parte da sua mordeente. Acho que um argumento um pouco desatualizado (se me permitem a intromissão), em vista os efeitos de desestabilização da crise da dívida soberana e os resgates “austericidas” impostos por Bruxelas. Especialmente quando, no que resulta a parte mais ambiciosa e esperta do livro, o seu autor projeta um mapa de afinidades de grande fôlego em torno da lingua compartilhada (Galego-Português, Português-Galego: não há direitos de nascimento). Uma vantagem que, bem gerida,viria  salvar o entrave que Castelao percebeu para a “reunião portugalaica.”

Mas agora, de fazer da necessidade uma virtude, talvez pudesse ser que a ousada especulação de uma fusão inter-nacional levaria  a um melhor resposicionamento desta Iberia hipotética pelo seu peso democráfico,  económico e geo-estratégico no contexto de uma UE mais democrática, solidária, ecológica e social. Tal proposta aprenderia no precedente da reunificação alemã contando a seu favor com uma recepção positiva em toda a América Latina.

Em suma, um livro tão útil quanto necessário, escrito contra a preguiça mental (como muitos de seu autor) e o desleixo intelectual, que a alguns teimosos nos permite continuar afirmando “menos mal que nos queda Portugal”.

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