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Feminismo, Movementos sociais, Opinión, Pensamento — 13 Decembro, 2015 at 22:06

Entre o transfeminismo idealista e o feminismo radical: crítica para uma correta perspetiva do género

por Daniel Barral

queerA Teoria Queer fala do género, se bem não exclusivamente, quanto menos sim como peça central do seu discurso. Porém, poucos termos há tão difíceis de definir de forma singela e unívoca.
Em achegarmo-nos ao conceito de género devemos ter em contar que este conta com uma história e uma origens determinadas; não basta com definirmos o que é o género hoje e para uma determinada análise política, senão que se vê preciso traçar uma evolução diacrónica, uma genealogia do género, ao mesmo tempo que contextualizar os seus múltiplos usos dentro dos diferentes discursos contemporâneos sobre o corpo.
Igualmente é interessante fixarmo-nos em como estes discursos se relacionam entre si e como abrem a porta a uma ou outra linha de praxe política. Assim como umas põem ênfase no carácter identitário do género, tal que algumas correntes do transfeminismo, umas outras posam mais a olhada sobre a estrutura de opressão que o regula —esta última visão identifica-se em maior medida com o feminismo
radical.
No debate atual em torno ao género percebem-se nitidamente estas duas posturas, a do género como identidade subjetiva, e por tanto como eleição, e a do género como uma sistema social, isto é, como um destino. Obviamente, existem múltiplos matizes e inúmeras posturas fora das duas citadas, mas são estas as mais interessantes pela contradição que entre elas existe, contradição que devemos
superar se queremos orientar corretamente a praxe revolucionária.

Esta confusão sobre o que é o género, sobre como se relacionam nesta ideia o sujeito individual e a estrutura social, parte, em primeiro lugar, de uma análise superficial e pouco rigorosa do funcionamento da opressão patriarcal e sobre como os indivíduos interagem em e com ela. Existe um certo transfeminismo, que chamaremos de idealista, que inicia toda análise desde o subjetivo e o individual, da abstração de sujeitos cuja vontade e cuja conceção relativa da realidade exterior e de si próprios é condição suficiente para enunciar verdades, as quais não têm em conta as condições de existência nem se acolhem a uma análise material da opressão. Esta postura teórica remata por afirmar que o género é um ato meramente enunciativo, um dizer “eu sou”, “eu defino-me nos meus próprios termos”.

Como contrapartida ao transfeminismo individualista, e bebendo do marxismo, o feminismo radical tenta substituir a subjetividade do “eu sou” por uma objetividade que tenha em conta que o sujeito que se auto-enuncia nunca o fai isolado, senão baixo a olhada social, numas condições materiais de existência determinadas e em relação com uns presupostos culturais, epistemológicos e ontológicos intersubjetivos que respondem à ideologia dominante no modo de produção capitalista. Qual é o erro em que incorre o feminismo radical, logo? Reifica (dota de objetividade e materialidade) uma categoria que o transfeminismo acertadamente descartara como pura ideologia, o sexo. No intento de achar um fator comum que possibilite aplicar à opressão patriarcal o mesmo esquema que o da opressão de classe, o feminismo radical mantém o “sexo biológico” como realidade material e binária e como signo identificador da “fêmea como classe”. Intenta, já que logo, analisar da mesma forma estruturas de opressão diferentes e remata por reduzir o género a uma posição imutável dentro deste sistema de opressão, posição que, paradoxicamente, vem prescrita pelo mesmo sistema que tenta eliminar. Remata, pois, por aceitar definir-se nos termos da ideologia patriarcal.

A solução ao conflito não semelha fácil. Porém, existe a possibilidade de recolher parte da crítica do feminismo radical para, aplicandomos ajeitadamente uma análise materialista lá onde compre aplicá-la e desbotando como ideologia aquilo que é ideologia, depurar o transfeminismo de idealismos subjetivistas que obstaculizam uma análise acertada da opressão patriarcal e uma correta direção da praxe revolucionária.

Compre, pois, pormos o género baixo uma nova luz, iluminado por ambos focos. Ver o género unicamente como uma identidade é uma postura tão simplista como reduzi-lo aos papéis de género; igualmente indefensável é a tese de ser X género (um género descrito baixo o conceito de classe) porque o patriarcado assim o prescreve e oprime em consequência. O género há que entendê-lo pondo o sujeito individual em relação com a ideologia do sistema de opressão e o funcionamento deste. Contemplar o género como uma livre identificação em abstrato peca de subjetivismo e idealismo, mas subordiná-lo à posição dentro do sistema de opressão assume erroneamente que estas posições são fixas e puramente materiais, caindo ademais num determinismo feroz.

Devemos aceitar que o género não é puramente uma identidade, uns papéis sociais ou uma posição num sistema de opressão; é as três cousas ao mesmo tempo. O género é performativo: é um fazer em constante negociação com o sistema que cria a aparência de uma identidade essencial. Não é só fazer, pois a praxe deve ir acompanhada do pensamento, nem só identidade, pois o pensamento não existe sem a praxe. E esta unidade de pensamento e praxe deve ser contextualizada no sistema de opressão, tanto no nível material como no das ideias.

O sistema tem uma superestrutura, uma ideologia de género que divide e regula os corpos, imprimindo neles uns significados determinados. Mas esses significados, essa simbologia do género, é a que codifica e justifica a opressão, o estado de dominação na infraestrutura material. Porém, não é que as ideias existentes sobre o género gerassem a opressão, ainda que sim contribuam a fixá-la e ocultá-la como natural. A infraestrutura e a superestrutura estão em relação dinâmica e não podemos obviar nenhuma das duas.

O género é uma construção social, um produto artificial do ser humano que justifica umas relações de poder, e, assumindo que a categoria binarista do sexo não tem existência de por si, senão mediante e graças ao género, o sexo como categoria material aparece tão artificial como o género.

Em consequência, o género, como piar de toda dominação patriarcal, deve ser destruído se queremos derrubar o sistema de opressão. Mas não nos confundamos, não se trata de perseguir umas ou outras expressões de género, sempre que estas não impliquem um ato de opressão, nem assentar a subjetividade num sexo material que diferencia quem sofre opressão de de quem não. Trata-se de eliminar o significado das práticas, erradicar o sistema que produz a diferença e lutar contra a opressão e a sua justificação. A chave está em abolir a assinação da identidade de género e a imposição dos papéis correspondentes, não em recuperar uma falsa dicotomia pré-social macho/fêmea, nem, por suposto, em multiplicar as identidades ad infinitum. As identidades não binárias, ou bem são género porque estão em relação com as identidades binárias (relação estabelecida mediante a prática, ou seja, mediante a citação performativa dos papeis de género), ou bem não são género em absoluto, pois a identidade de género, como dixemos, só tem significado em relação com os papéis de género e o sistema que os regula.

Qual é o nosso objetivo, pois? Rematar a produção de indivíduos generificados. As identidades “homem” e “mulher” só têm sentido em tanto que há um sistema que as produz e as regula e que promove a dominação de uma delas. Compre desterrar o essencialismo sexual e eliminar a heterossexualidade como meio para aniquilar a divisão artificial em homens e mulheres e, portanto, a opressão patriarcal em todas as suas formas

1 Comentario

  • Mais que unha ollada social sería unhas condicións materiais.
    “Non é a conciencia social do home a que determina o seu ser senon, polo contrario, o ser social é o que determina a sua conciencia”. (Marx Contribución á Crítica da Economía Política.)
    Se empregas o pensamento de Marx para analizar á realidade non significa que esa análise sexa radical. É a que é.

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