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Cedeira, Galiza, Movementos sociais, Opinión — 23 Xaneiro, 2014 at 10:23

A prédica e o trigo

por Filipe Diez

A propósito de Somos Cedeira como exemplo de aliança política e social


A relação entre a política social e a institucional é um dos desafios contemporâneos da esquerda. A crise dos partidos – acentuada pola crise econômica e social e pola ausência dum discurso alternativo que vaia além da crítica do existente ou da reiteração de receitas pensadas para umha economia em expansão que já não existe – tem levado a diversas tentativas de solução: a organização autônoma, a constituição de plataformas dirigidas desde os próprios partidos e a articulação de alianças.

 

A organização autônoma, própria tanto dos movimentos sociais já consolidados como dos novíssimos movimentos nascidos na esteira do 15-M, constitui umha alternativa muito interessante, na medida em que coloca o seu centro de atenção na intervenção social e deixa em segundo plano a vida organizativa, ao entender o movimento como um instrumento muito mais do que como um fim em si mesmo – o qual não quer dizer que essa tentação não esteja presente, especialmente nas estruturas mais perduráveis –. Mas forçoso é tamém reconhecer as limitações deste modelo, tanto na sua capacidade de influência sobre o conjunto da comunidade social à qual se dirige como na ausência de recursos institucionais que obrigam a terem um ou vários referentes partidários para canalizarem as suas luitas nessa esfera.

 

As plataformas hegemonizadas por este ou por aquel partido pouco ou nada engadem à necessidade de renovação tanto da cultura política como do discurso alternativo à hegemonia neoliberal e conservadora que nos oprime. No fundo, este modelo não é mais que umha opção puramente taticista dos partidos para saírem do passo sem enfrontarem as mudanças internas e de relacionamento com a sua base social que se lhes demandam. Baixo a aparência de apertura à participação e de transversalidade, o que se agacha é a intenção de mudar todo o que faga falta para que, no final, nada mude.

O pior de todo é que, ademais, esta opção leva a transladar ao âmbito da esquerda social a dinâmica de competição própria da luita partidária (e o mesmo se pode dizer do âmbito sindical), de jeito que se multiplicam os coletivos e plataformas que defendem um mesmo programa reivindicativo, mas com diferentes graus de penetração dum ou doutro partido. Isso, obviamente, implica tanto umha dramatização – freqüentemente grotesca, ademais de replicar de jeito incoerente o mesmo que se critica no bipartidismo – das mínimas diferenças existentes como tamém umha menor capacidade de mobilização social e, com isso, o debilitamento das causas que se di defender.


 As plataformas hegemonizadas por este ou por aquel partido pouco ou nada engadem à necessidade de renovação tanto da cultura política como do discurso alternativo à hegemonia neoliberal e conservadora que nos oprime.

 

 

O terceiro jeito de articular a alternativa é o das alianças, que umhas vezes se entendem só restritas aos partidos (frontes, federações, coalições), outras só incluem movimentos sociais (foros, coordinadoras) e noutras são mistas. Sem dúvida, este último é o modelo que considero preferível, por ser o que conjuga mais vantagens, assi no tocante ao grau de influência e de legitimidade social como no referido ao mútuo enriquecimento entre a ação social e o trabalho institucional.  A maiores, não é necessário para participar que ninguém renúncie à sua identidade política e/ou ideológica de partida, mas ao tempo a convivência e o trabalho em comum vão construindo umha nova identidade compartida, o que redunda em benefício do coletivo.

 

O caso é que para chegar a esse modelo de aliança, todas as partes tenhem que ceder e superar os seus receios. Receios dos partidos a perderem o control, a deixarem de ser o referente principal mesmo para boa parte da sua militância, a trabalharem e que seja um competidor quem acabe tirando proveito eleitoral; receios dos movimentos sociais a renunciarem à sua autonomia, a se contaminarem no jogo institucional que tantas vezes doestaram; receios duns e doutros a perderem a identidade que levam anos a construir, cultivar e transmitir. Pois bem, só vencendo esses receios – em boa parte compreensíveis, mas que não justificam em nengum caso nem o imobilismo nem o sectarismo – é possível construir ferramentas eficazes para os desafios e as demandas atuais.

 

...não é necessário para participar que ninguém renúncie à sua identidade política e/ou ideológica de partida, mas ao tempo a convivência e o trabalho em comum vão construindo umha nova identidade compartida, o que redunda em benefício do coletivo.

 

 Somos Cedeira é um bom exemplo disso. É um grupo pequeno, mas que nasceu com as virtudes indicadas nas linhas anteriores, consciente das suas capacidades e dos obstáculos que enfronta e inserido na comunidade que pretende contribuir a transformar. Um exemplo, a nivel local, que pode – e deve, ao meu juízo – servir de inspiração para iniciativas noutros âmbitos, a começar polo nacional: persoas de diferentes filiações partidárias e de diversas procedências no trabalho social trabalhando conjuntamente no que tenhem em comum, que é quase todo, ao invés de sublinhar as mínimas diferenças existentes; e que dividem as tarefas sem personalismos, mas dão a cara como um equipo e não como um somatório de partes.

 

 Somos Cedeira é um bom exemplo disso. É um grupo pequeno, mas que nasceu com as virtudes indicadas nas linhas anteriores, consciente das suas capacidades e dos obstáculos que enfronta e inserido na comunidade que pretende contribuir a transformar.

 

Sabemos que vai demorar – se é que chega – o momento em que umha alternativa desse tipo seja possível a nivel galego. E mesmo que não está de mais pedir o impossível, eu hoje conformo-me com umha demanda mais humilde: que se apoie o que representa Somos Cedeira e que as forças políticas que trabalham no âmbito social da esquerda social e partidária, independentemente dos adjetivos que cada quem se autoassigne para consumo interno, ajudem a impulsar umha iniciativa que pode servir como modelo de confluência e que tem todo a favor para ser um ponto de encontro cordial, crítico mas tamém propositivo.

 

Porque não todo vai ser falar de “convergências das luitas”, “fronte ampla”, “partido movemento”, “candidatura cidadã” ou qualquera outro fetiche retórico. Eu não sei o que quere a gente, assi em geral, mas estou convencido de que somos não poucos os que desejamos mais trigo e menos prédica, mas pão e menos circo, enfim mais coerência entre o que se di e o que se fai, entre o que se promete e o que se pode cumprir. Por isso, porque penso que a gente de Somos Cedeira partilha desse espírito, penso que vale a pena aprender da sua experiência e contribuir a fortalecê-la.

 

Filipe Diez é professor de língua e literatura galegas e de língua portuguesa, blogger e fundador de Praza Pública.

1 Comentario

  • Totalmente de acordo; “…não é necessário para participar que ninguém renúncie à sua identidade política e/ou ideológica de partida, mas ao tempo a convivência e o trabalho em comum vão construindo umha nova identidade compartida, o que redunda em benefício do coletivo.”

    “mas pão e menos circo” que nesta época podemos traducir en menos fútbol e máis traballo.

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